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domingo, 5 de fevereiro de 2017

Histórias de 2016. Contos sobre os melhores discos, filmes, séries e histórias de vida.

*Nada vai tirar o mérito de que tivemos um ano com novo disco do Wilco, show(s) do Wilco em São Paulo, Louis CK fazendo a melhor série dos ultimos tempos e um Star Wars tão majestoso.


Alec Baldwin imitando Trump. Os EUA foram a loucura. 


Vou começar a lista que todos os anos faço juntando tudo o que me impressionou e quero ser breve. Não houve um 2016 ruim. Não concordo com esse julgamento feito em todo canto. Separar frustrações e decepções numa caixa de 365 dias nos faz crer que haverá uma outra caixa que vai ser aberta e por ai vai até o virarmos pó de estrelas novamente. É uma forma de ver o mundo em caixas e não numa longa pista de corrida, que no meio do caminho tropeçamos, caimos, liberamos nossas endorfinas e conquistamos muitos podios e ficamos atras as vezes. O que aconteceu ano passado nos faz estar mais preparados para viver e não a aceitar que vivemos para sempre. Pessoas morrem, queridas como David Bowie, Leonard Cohen, Carrie Fisher, Prince, por ai vai. Pessoas elegem e apoiam figuras que nos dão nenhuma inspiração, pelo contrário, lideres que vieram para causar discordia. Pessoas ficam tristes. Eu fiquei muito. No final, isso tudo nos faz despertar do medo e da frustração e necessário para aprendermos a cultivar as nossas esperanças e confiança. Duas frases de dois pensadores do país que mais nos decepcionou em 2016 nos servem de espelho para terminar essa introdução minha do que foi os 365 dias que se passaram. A primeira de um pastor e uma das vozes mais influentes do protestantismo nos Estados Unidos, Henry Ward Beecher. "Our best successes often come after our greatest disappointments." ("Nossos melhores sucessos vêm depois de nossas maiores decepções") e a de Martin Luther King, que disse "We must accept finite disappointment, but never lose infinite hope." ("Nós devemos aceitar a decepção finita, mas nunca perder a nossa esperança infinita").

O que eu lembro dos filmes que eu vi...

The Lobster. De longe uma das obras mais inteligentes e interessantes do ano que se passou.


Apesar de estar de saco cheio de filmes de super-herois, Deadpool e Guerra Civil: Capitão América foi boas surpresas. O primeiro é um dos melhores filmes já feito nessa safra (original, corajoso e nenhum pouco censurado). Os filmes que venceram o Oscar, O Regresso sem duvida virou já um clássico, pela forma como foi filmado e pelos efeitos e a camera do diretor Alejandro Gonzalez Inarritu. Zootopia me chamou muita atenção também, filme de animação com tema de adulto que vai de se aproveitar dos outros a mostrar como não é facil a vida. O novo do Nicolas Winding Refn, "The Neon Demon" é uma das coisas mais vicerais e profundas do ano, que só perde para "Elle", do Paul Verhoeven. Desconstroi todas as nossas boas intenções e formas de lidar com o certo e o errado. Colin Farrell faz a mais brilhante interpretação de sua carreira no genial "The Lobster", do diretor grego Yorgos Lanthimos.

Rogue One, de Gareth Edwards é um filme muito bem feito e que nos enche das melhores sensações que um filme de Star Wars pode proporcionar: emoção, nostalgia e personagens muito bem feitos.


"There's a 97.6 percent chance of failure". K2SO melhor personagem.


O que mais me chamou a atenção sem duvida foi Manchester a Beira Mar. Drama poderoso, bem escrito e capaz de nos tirar do chão quando Casey Affleck e Michelle Williams discutem, depois quando se encontram anos depois. Poderoso e profundo. A Chegada faz algo assim também, mas aos poucos. Dennis Villenueve faz uma obra sobre nos mesmos e nossos conflitos internos, quando uma invasão alienigina parece ser capaz de despertar nossas reações mais profundas. Sing Street, um filme modesto feito pelo grande diretor irlandês John Carney, sobre garotos que formam uma banda parece ser um baita filme, quando termina um filme avassalador. O singelo torna gigantesco. Sem contar "La La Land" que estreou no começo já desse ano, mas é um filme que saiu ano passado e chegou aqui esse ano antes de eu escrever aqui. Ryan Gosling e Emma Stone vão ganhar todos os prêmios (e devem) pela forma unica de despertar o gênero de musicais para uma outra dimensão. Damien Chazelle, o mesmo garoto que dirigiu e escreveu "Whiplash" engata um filme que eleva o seu nome como a mais bela mente criativa de Hollywood.
 
Menções especiais ainda para: Sully, do Clint Eastwood, A 13ª emenda, documentário da Ava DuVernay, Dois Caras Legais, de Shane Black e Slow West, de John McLean que só vi ano passado.



O que eu lembro dos discos que eu ouvi...

Bowie nos deixa com uma obra prima. Blackstar é um adeus ao mundo em forma de música.


Começo pelo disco que abalou o ano. 'Blackstar' seria apenas o novo disco do grande David Bowie, se não acabasse sendo o seu derradeiro e postumo album. Com canções como 'Lazarus', que é uma confissão de sua morte, Bowie nos avisa "Look up here man I am in heaven. I got scars it can be seen." O seu ultimo disco é uma obra prima acidental. Traz a beleza da vida e da morte, em versos que caminham para nos levar para a finitude de toda uma vida e o que nos espera. Com oito musicas, o disco já entra para um dos melhores dos seus discos.

Sem duvida houve outros discos tão impressionantes quanto o de Bowie. Beyoncé realizou um dos seus mais ousados discos. LEMONADE tem o vigor de um discurso de protesto a favor de feminismo e preconceitos raciais. Faixas como DONT LOSE YOURSELF, parceria com Jack White soa como um Led Zeppelin junto de sua voz marcante. FREEDOM talvez a mais poderosa canção. Radiohead voltou com um disco profundo, com letras que norteiam a nossa busca por respostas. 'True Love Waits' assim como outras canções já haviam aparecido em shows, mas aqui no disco 'A Moon Shaped Pool' se torna um hino. Destaque para 'Daydreaming'. O rebelde Kanye West pode ser um completo perdido na vida real, mas nos seus discos ele dá o seu melhor. 'The Life Of Pablo' é uma obra prima cheia de nuances e com canções unicas. 'Ultralight Beam' é um hino gospel que abre o disco majestosamente. 'Famous' e 'Waves' são ótimas canções.

Angel Olsen fez um baita disco. Quem é ela? "My Women" é um instantaneo disco que catapultou a carreira dela. Dizem que os seus shows são ainda melhores. Um dos melhores discos de rock do ano. Em se tratando de rock, o melhor sem duvida é dos Car Seat Headrest, o brilhante "Teens of Denial". O disco é repleto de sons que vão até nove minutos, mas não fica chato. As guitarras e baixos constroem sutilezas, sons etéreos e a capacidade de transcender o sentidos. Wilco retornou com o excelente "Schmilco", trazendo menos a profundidade do ser humano, para tratar de sentimentos que nos remetem a mémorias de infancia, primeiros amores, decepções, vitorias.

Os ingleses do The 1975, e o seu "I Like It When You Sleep, for You Are So Beautiful Yet So Unaware of It" alardeado como melhor disco de 2016 pela NME é um dos belos discos do ano, com canções muito boas. A banda Fat White Family trouxe o arrebatador "Songs For Our Mothers" com a já inesquecivel "Whistest Boy on the Beach". Os The Last Shadow Puppets fizeram um disco incrivel, o 'Everything You Come to Expect' e o EP fantastico com direito a cover de Leonard Cohen, 'The Dream Synopsis". Ao falar de Leonard Cohen, esse foi outro grande nome da música a nos deixar com um recente disco. "You Want It Darker" fecha uma discografia inigualavel de canções que já ficaram para sempre guardadas em nossas mentes.

Parquet Courts vai fundo no novo disco num tom mais pop que os experimentais ultimos discos. "Humam Performance" dialoga com a vida ordinaria do dia a dia, aos molde de Talking Heads, cria hinos capazes de nos levar a compreender as nossas vidas através do espelho. Um dos maiores retornos desse ano foi dos rappers do A Trible Called Quest. Com o discaço "We Got From Here... Thank You 4 Your Service" eles foram além do comum mais uma vez e entregam canções poderosas para esses tempos sombrios que surgem.

Fonte: Scream Yell - Show do ano: Wilco no Auditorio Ibirapuera.


Menções especiais para: Iggy Pop e o seu "Post Pop Depression", Blood Orange trazendo o lindo "Freetown Sound", PJ Harvey e o seu disco de protesto "The Hope Six Demolition Project", Kings Of Leon e o pop interessante "WALLS", o retorno de Richard Ashcroft com o belo "These People", Pixies trazendo o som poderoso em "Head Carrier", Band Of Horses e o bem divertido "Why Are You OK" e o brilhante novo album do Jimmy Eat World, "Integrity Blues".


O que eu lembro das séries de TV que eu vi...


As crianças e seu RPG. O mundo que saiu do jogo e virou realidade. 'Stranger Things' marca a cultura pop do ano.


A "eleven" ou simplesmente "él" deixou as nossas cabeças cheias de questões mal resolvidas. A série 'Strange Things' foi um dos maiores acontecimentos na cultura pop no ano que se passou. Graças aos irmãos Matt e Rosss Duffer e do produtor e diretor Shawn Levy, uma história saida dos anos 80 com direito a referencias da época (da trilha sonora as citações de filmes), três garotos mais a misteriosa "eleven" saem em busca de pistas que levem ao paradeiro do amigo deles que desapareceu por razões misteriosas.

O ano que se passou mostra sem duvida que estamos na era de ouro da TV, com produções criativas e com um peso maior que o cinema, como palco para as grandes obras audiovisual. O maior exemplo disso são séries como Atlanta, criada pelo músico, ator, futuro Lando Calrissian Donald Glover, que mostra um rapper, um amigo e seu primo em dialogos existenciais em busca de sucesso em meio a dura realidade que vivem. A profundidade só é vista de longe, nas cenas, dialogos. BoJack Horseman, desenho do Netflix e This Is Us seguem pelo mesmo caminho.

Os gigantes da transmissão por streaming dominaram mais uma vez o ano. Netflix, Amazon Prime e Hulu (ainda não presente no Brasil), mostram que as gigante tem de competir o máximo que podem. A HBO, Fox, Showtime, Starz, entre outras mostram estarem trabalhando bem o suficiente para competirem.

O mega estrondo Game Of Thrones foi a grande série da HBO, que agora deixa mais duas temporadas antes do final da série para sempre. O final da ultima temporada mostra que as coisas estão chegando a um final incerto. Os ecos de poder em mãos erradas ao final lembra bem o que os proprios norte-americanos estão vivendo. A rainha dos dragões agora segue para a maior batalha de todas pelo trono. Aonde isso vai nos levar?

Em paralelo, a HBO já deixou as cartas expostas para a sucessão de GoT com o western futuristico Westworld. A série de Jonathan Nolan, JJ Abrams e Lisa Joy tem um roteiro absurdo, atuações acima da média. A trama nos coloca dentro de uma métafora sobre a nossa vida humana em paralelo a de um mero robô. A trilha sonora com Radiohead, The Rolling Stones no piano é um dos pontos alto. O compositor da trilha é o mesmo de GoT, Ramin Djawadi. Outros destaques execelentes da HBO foi Veep, com uma surpresa no final da temporada. Julia Louis-Dreyfuss continua acima da média; The Night Of, trazendo debates raciais em meio a um crime sem solução. A genial Silicon Valley, na sua melhor temporada até aqui. Girls na penultima temporada. A sensacional série 'Vinyl' com Martin Scorsese, Mick Jagger e Terrence Winter não sobreviveu a uma segunda temporada, mas deixou uma incrivel experiencia visual, auditiva vibrante. O ator Bobby Cannavale está absurdo como o dono de uma gravadora em meio a efervecente Nova York dos anos 70.

Claire Foy estonteante.


A Netflix teve o seu ponto alto, além da série da "eleven", com a história da rainha Elizabeth no começo de seu reino como rainha. 'The Crown' escrita por Peter Morgan expõe os dramas vividos pela ainda jovem rainha (vivida pela atriz absurda de boa Claire Foy) em busca de dialogos com o parlamento, seus problemas em familia, primeiro com sua irmã e posteriormente com seu marido. Um requinte em fotografia, trilha-sonora, edição, figurino, cenários estonteantes. É impossivel estar indiferente a essa série.

Outra atração da plataforma de streaming foi a nova temporada de Black Mirror com um primeiro episodio já classico, sobre os vicios na exposição causada pelas redes sociais. Destaque ainda para Love, escrita por Judd Apatow, Master Of None, escrita e estrelada pelo ator Aziz Ansari. The OA, produzida pela produtora de Brad Pitt.

Louie é uma série incrivel do gênio do stand up Louie CK, mas se podemos dizer que ele esteve em um projeto que beira a uma obra prima é a série 'Baskets' da FX. Com Zach Galifianakis no papel principal se dividindo em dois papéis hilários, ainda não chega perto do quão é hilário sua mãe na série. O ator Louis Anderson faz Christine Baskets, uma dona de casa gorda a ponto de entrar em coma por causa de uma diabetes contraida pela dieta comum a todo norte-americana (baseada em fast-food e comidas cheias de calorias). Outro destaque é a Martha (interpretada por Martha Kelly). Chip Baskets (Zach) é um palhaço que estuda como ser palhaço na França. Lá ele se apaixona por uma francesa ambiciosa. O seu destino acaba sendo a de um drama sem fim, mas no fundo de tanta coisa ruim, os roteiristas aqui extraem o melhor da comédia no ano.


Louis CK atrás das camaras e Zack Galifianakis. Geniais em 'Baskets'

Menções especiais para: Mozart in the Jungle, da Amazon Prime, com Gabriel Garcia Bernal; Halt and Catch Fire da AMC, com uma terceira temporada boa; Red Oaks, da Amazon Prime, produzida por Steven Soderberg, a assustadora 11.22.63, com James Franco e produzida por JJ Abrams junto com Stephen King, baseado em sua obra; Animals, desenho da HBO sobre pombos, gatos, cães; Catastrophe, brilhante série inglesa com os atores Rob Delaney e Sharon Horgan como um casal e um bebê em dialogos cheios de referencias e situações hilárias; Fleabag, outra série inglesa com a revelação Phoebe Waller-Bridge no papel de uma mulher na casa dos trinta superando tragédias pessoais; High Maintenance, da HBO baseada numa série de curtas exibidas pela internet sobre um sujeito vendendo maconha; Outcast, da Fox, criado por Robert Kirkman, o mesmo de The Walking Dead. Creppy as hell; a segunda temporada de Mr. Robot, com uma trama não tão interessante quanto a primeira, mas vele a pena dar continuar vendo; The Night Manager, série incrivel com Tom Hiddleston e Hugh Laurie, da BBC com a AMC; The Get Down, uma grande surpresa vinda do diretor Baz Luhrman, australiano diretor de Moulin Rouge, O Grande Gatsby, que cria uma história brilhante sobre o hip hop em meio a um carrossel de musicas, danças e improvisos de hip hop; Ash Vs Evid Dead, Blunt Talk, Insecure, You're the Worst, Man Seeking Woman fecham a lista.

E claro ainda tivemos o futebol brasileiro...

Fonte R7 - É campeão, rs

domingo, 3 de maio de 2015

Cinco Anos.


O blog HENRIQUEVOXX, que leva meu nome e cuja origem está na vontade de escrever coisas que dizem respeito a tudo e a nada ao mesmo tempo fará no dia 12 de maio cinco anos de idade. Para iniciar os pontapés da comemoração mixuruca que darei para ele, proponho chamar o meu querido amigo David Bowie para cantar uma música que tem tudo a ver com essa data. Cinco anos de blog. Com Five Years, famosa canção do camaleão. E ai lembrei que o Seu Jorge fez um cover bacana para aquele filme do Wes Andreson, 'A Vida Marinha de Steve Zissou', dessa mesma canção resolvi colocá-la para tocar abaixo. É só para dar inicio as festividades. kkk




quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Refletindo um novo som épico. Arcade Fire atrás da batida perfeita.

* O som dançante vindo das festas do Haiti


O carnaval que influenciou o som da banda canadense.

A hipnótica banda de Montreal se distancia das inspirações que os conduziram até aqui e fazem sua obra máxima indo até as raízes da música caribenha. Win Butler, Regine Chassagne, William Butler (irmão de Win), Sarah Neufeld, Richard Parry, Jeremy Gara, Tim Kingsbury, Howard Bilerman, Brendan Reed, Tim Kyle. Sim todos são integrantes do Arcade Fire. Uma das bandas mais incríveis da música hoje.

A música é algo que se transmite e que variando de culturas diferentes possui sentimentos e significados variados. Faz parte de uma mensagem, de um significado para todos numa comunidade. Na concepção dos integrantes do Arcade Fire, a música transcende pré-concepções e simulacros. Pertence a ideia geral que conduz o que a música pode significar para nós enquanto seres espirituais, que sofrem, que amam e se alegra. Talvez uma das suas maiores virtudes seja esse caráter único que se vê em suas composições e versos das canções. Adicionando a isso a forma apoteótica que torna suas canções lindas e majestosas. O que eles trazem agora nesse quarto disco bebe da fonte da cultura haitiana e caribenha, uma cultura que se aproxima do que a música produz nos nossos espíritos e de que forma ela nos atinge. Influenciada pelo som dos RAM, um grupo musical criado por compositor e músico Richard A. Morse (de onde deriva as iniciais), famoso no Haiti que une o rock'n'roll moderno, com instrumentos de vodoo, como rara e petwo, eles se inspiraram para fazerem o som que pode ser notado em faixas como "Here Comes The Night Time" e "Reflektor".  

Isso tudo ocorreu em 2010, quando cada membro da banda experimentou o poder da música para os haitianos e como isso está presente no cotidiano e em suas vidas. Eles estiveram no Haiti no período de karnaval, uma celebração carnavalesca das ilhas, onde as pessoas se vestiam com roupas repletas de alegorias diferentes. "É 10 vezes mais elaborado que qualquer show de rock que eu já estive um dia", disse Win Butler para a NME, "e são só pessoas com papelão, um pouco de tinta e algumas flores feitas de papel maché e conduzindo isso ao extremo, num show visceral". 

O quarto álbum da banda foi descrito pela mesma New Musical Express como uma mistura de influencia que vão de The Cure, Michael Jackson, Talking Heads e The Clash. Ao contrário dos discos anteriores da banda, ("Funeral", "Neon Bible", e o premiado "The Suburbs"), "Reflektor" não possui uma unica concepção narrativa, diferente de "Suburbs" que ganhou vida quando Win viu uma foto de um amigo de infância com uma criança nos ombros no bairro onde viviam. Aqui só os ritmos jamaicanos e haitianos se sobressaem. O disco acabou se tornando duplo, com canções de oito minutos. Tecnicamente, eles tinham a intenção de gravar tudo em um único disco, mas Will diz que eles estavam temerosos de que o disco soaria "pesado demais". "Houve uma conversa para fazer um álbum curto com uma temática realmente bem substancial, como o "Remain In Light", do Talking Heads", ele disse. "Nós até brincamos com a ideia de fazer um "Sandinista!" ou um "White Album", completa.

Qual o lugar da banda no Rock nos dias de hoje? Win Butler, confrontado quando citam o verso de "Normal Person", quando ele antes de começar a canção ele comenta para a platéia num tom de voz bêbado e exausto: "Do you like rock'n'roll music? Because I don't know if i do", o que é o rock para ele nos dias de hoje? Ele responde: "Eu achei engraçado, começar uma canção de rádio com isso",  e continua: "Há muita visceral simplicidade na música de rock'n roll, mas ha tempos o "roll" se perdeu. Nós estamos tentando manter isso (na expressão)". A banda é vista por muitos como indie e esquisita por muitos meios de midia ainda, mesmo tendo alcançado o mainstream com o Grammy pelo disco "The Suburbs". Muitos o consideram uma banda de rock fraca. "Nós somos uma banda esquisita muito nesse contexto mainstream, um pouco como uma ovelha negra, entende?", desabafa Win sobre o lugar que reservam para a banda até mesmo na hora de tocar nas rádios como veio a reclamar da BBC Radio 1, que na Inglaterra não tocaram "Reflektor".



Após uma massiva propaganda espalhando símbolos de inspiração haitiana em diversos lugares do mundo, eles fizeram dois shows secretos em Montreal no clube Salsatheque no começo de setembro, se auto denominando The Reflektors. Eles alertaram para que todos viessem fantasiados. Para que fossem "parte das performances da banda", para que pudesse haver uma interação entre a banda e o publico. 

"Reflektor" foi produzido pelo bamba James Murphy (ex-LCD Soundsystem) nas gravações feitas no estúdio Electric Lady em Nova York. Antes houveram gravações feitas pela banda na Jamaica, num castelo chamado Trident Castle, onde o produtor Markus Dravs conduziu as performances ali feitas, no clima da experiencia que tiveram no karnaval. Dravs já havia trabalhado com eles em "Neon Bible" e "The Suburbs". Todos os produtores que auxiliaram a banda concordam com uma coisa em comum: todos citam o perfeccionismo de Win Butler e da banda em criar um trabalho único. "Para eles, só está terminado até o momento em que o disco chegar nas lojas", James Murphy disse a NME. Enquanto isso, toda a dedicação faz produtores dizerem que eles seguem uma "metodologia U2" para finalizar um álbum. Não estão tão preocupados com tempo ou dinheiro, e sim com o que o disco tem a dizer."

De longe uma obra prima da banda, que despeja aqui influencias que vão do mito de Orfeu e Eurídice (da arte conceptual da capa do disco, às letras e canções do disco, principalmente no segundo disco), aos ritmos dançantes e contagiantes trazidos do Haiti e Jamaica. O Arcade Fire vai além e traz um trabalho mais humano, do que jamais eles haviam trazido até então. Os discos anteriores todos brilhantes e extremamente bem feitos só fez aqui esse disco ser tão aguardado. E justamente por esse motivo tão esmiuçado provocando algumas criticas a esse trabalho. Em 2007, como lembra a NME, a critica musical do The New Yorker Sasha Frere-Jones se queixou de que "se a banda trazia traços de influencias de soul, blues, reggae ou funk só poderia ser filosofico, porque não poderia ser ouvido", sempre ouve a preocupação de trazer ritmos que pudessem ser tocados pelo mundo e que sonoramente fosse curtido em diferentes culturas.

A faixa-titulo que abre o disco é uma alegoria que representa bem o que eles acham do mundo hoje em dia, onde não se observa o que está bem diante dos nossos olhos. "Now, the signals we send. Are deflected again. We’re still connected. But are we even friends?", canta Win Butler. "I thought I found the connector. It’s just a reflektor (it’s just a reflektor, just a reflektor)". As faixas que no total somam treze faixas, cujas as sete primeiras faixas formam o primeiro disco e as seis restantes o segundo disco que focam na ideia de vida e morte, tão presente no mito de Orfeu e a faixa "Porno", uma das melhores do disco. "We Exist", parece querer chamar atenção para alguma dificuldade de se enxergar o outro. "Walking around. Head full of sound. Acting like. We don't exist.Walk in a room. Stare after you. Talking like. We don't exist", diz Win que tem baixos bem presentes. Reggae aqui e acolá. As faixas seguintes, "Flashbulb Eyes", "Here Comes The Night Time", "Normal Person" e "You Already Know" tem essa pega dançante pop carnavalesca e deliciosa. Ritmos africanos, pega dançante anos setenta talvez. Um primor. "Joan Of Arc" é uma balada que traz uma atmosfera com batidas e swing dançante. "Now they tell you that you're their museYeah, they're so inspired. But where were they when they called your name. And they lit the fire?"

A segunda parte do disco começa com sussurros de "Here Comes The Night Time II", uma transição do lado dançante para o lado sombrio e épico. Que trazem as românticas "Awful Sound (Oh Eurydice)" e "It's Never Over (Oh Orpheus)". "Porno", uma das mais brilhantes músicas da banda (e olha que não é facil dizer isso de uma música só) fala da falta de sentimentos humanos num mundo tomado pelo individualismo e indiferença alheia. O pornô superior ao sexo, por exemplo. "And all your make up. Just take it all off. I've got to find you. Before the line is lost. I know I hurt you. I won't deny it. When I reach for you. You say, "I'm over it. "But I know.", canta um Win Butler sussurrando como se estivesse sem folego muitas vezes.

A majestosa e melhor faixa do disco, "Afterlife", é uma sintese talvez do que o proprio disco quer tratar. Até onde vai o amor quando ele morre?, se pergunta a música ao tentar se aproximar do momento em que alguém parte, o que resta? As relações humanas esticadas e colocadas sob os nossos olhos parece ser o que a banda quer, e consegue exito ao fazer isso com tamanha beleza e encanto. "Afterlife, oh, my God, what an awful word. After all the breath and the dirt and the fires are burnt. And after all this time, and after all the ambulances go. And after all the hangers on are done hanging in the dead light. Of the afterglow.", diz Win que grita: "I've gotta know. Can we work it out? We scream and shout 'till we work it out. Can we just work it out? Scream and shout 'till we work it out? 'till we work it out, 'till we work it out.". Linda, sem mais. E o disco termina com a incrivel "Supersymmetry", com ecos de que o fim é só o começo se formos fortes o bastante, e reagirmos as reações do corpo.

Repleto de momentos apoteóticos, "Reflektor" é a melhor coisa feita nesse ano, e olha que isso é na minha opinião pois esse foi um ano em que muitos artistas lançaram novos materiais. O próprio David Bowie que surge ao fundo em "Reflektor", a faixa titulo do disco dos canadenses, lançou o excelente "The Next Day". Não consigo não me emocionar com discos do Arcade Fire, sempre tão impecáveis. Esse não fugiu a regra e por momentos se supera a tudo que fizeram até aqui. Bravo!




  
E um visual dançante e embalado em ritmos africanos. Sons cada vez melhores.





sábado, 13 de julho de 2013

Who is Bowie?

Nos olhos de uma lenda.

Ao analisar por meio de textos, reportagens e biografias a obra de David Bowie, para compor esse post, senti que estava fazendo algo incompleto. Me pus a ouvir todos seus álbums para poder defini-lo da melhor maneira possível. Sua grandeza não se encontra simplesmente nas suas apresentações lendárias, na sua aparencia e modo como trouxe a tona o visual como um instrumento para criar um espetaculo a parte nos shows impecaveis que viria a fazer nos anos 70 e 80. Sua imagem iconica seja na figura dos seres Ziggy Stardust ou na de Alladdin Sane, tão importantes para definir uma era da música e das décadas, apenas incrementava a genialidade que se transpunham nas músicas que criava então. Bowie é conhecido por não gostar de ser chamado de "inteligente" ou "intelectual", numa clara demonstração de humildade talvez, ou mais precisamente de uma persona que é capaz de ser que é, sem precisar de rotulos ou elogios para ser o grande músico. As parcerias que teve durante os anos, seja na tão bem sucedida trilogia de Berlim, no qual vivenciou incriveis experiencias na capital alemã, ao lado do produtor Brian Eno, ou até mesmo na que teve inicio em "Space Oddity", ao lado do produtor de longa data Tony Visconti e que durou por durante boa parte de sua longa discografia, ajudaram a experimentar diferentes formas de sons e música. Que não somente o faria alcançar o sucesso, como conduziria a maneira o rumo da música dos anos que estariam por vir.

A base de sua capacidade de nos surpreender vêm no ritmo de seus experimentos músicas que trazia um misto de combinações fascinantes aos ouvidos, capazes de nos fazer perguntar: O que isso tudo significa? Mas de algum modo significava o talento nato expresso nas canções. Seu primeiro single de sucesso, "Life on Mars?", do disco "Hunky Dory" (1971), ao trazer o folk, em meio a pianos que deslizam suavemente até crescer meteoricamente em um som singelo e belo. O perfeito modo de se exemplificar sua genialidade vem a seguir em canções como a imensa "Starman", do disco que o tornou célebre, o inicio de sua fase andrógina, "The Rise and Fall Of Ziggy Stardust And the Spiders From Mars" (1972), acompanhada pelas guitarras de Mick Ronson, companheiro de longa data de Bowie. Um hino sem sombra de dúvida. Ao perambular por esses sons, paro para observar o fato de que são eternas pela forma como as fez, canções com uma identidade própria, numa mistura ritmos majestosos e que impressionam.


Sua imensa discografia daria um bom post aqui, e que até posso vir a fazer, mas preciso ater ao minha proposta aqui hoje. O álbum Reality (2003), seria o ultimo do músico em dez anos, por ocorrencia de uma parada cardíaca que sofreu em 2004, o que o fez dar uma abrupta pausa em sua vida e uma reavaliação de suas prioridades, o que muitos fãs e mídia suspeitavam ser sua aposentadoria. Nada. Ele retorna agora em 2013, após ter permanecido por dois anos na surdina, e forçando todos ao seu redor no processo de criação do álbum, gravação chamar toda a operação de "O segredo". Em telefone, conversas e cotidiano das pessoas envolvidas. No seu aniversário, no dia 8 de janeiro, surgiu a noticia abrupta e inesperada que causou um espanto tremendo em todos. Bowie vai lançar novo álbum. E será em março. Ponto final. Bowie quis fazer o mistério todo para livrar todo o processo de expectativas. O primeiro single foi lançado no seu aniversário, a nostálgica "Where Are We Now?", junto do nome do novo álbum, "The Next Day". O que esperar desse retorno depois de dez anos. A surpresa que todos estaria para receber, eu vindo do futuro vou dizer aqui antes de tudo, é um disco que nunca soou tão original, atual e antigo na mesma dosagem, sem soar antiquado e sem ser pretensioso. Em outras palavras, um disco que mostra o quão vivo Bowie está.


Num belo misto de guitarras sonoramente delirantes e sons que trazem as loucuras e alienações de outrora, o novo disco de Bowie, "The Next Day" é um belo recorte de canções que atormentam e acalmam. Um bom momento para o músico que dá a volta por cima com tudo. O que é mais bacana é poder perceber a energia incrivel que ele despeja com uma vivida voracidade que não deixa de impressionar por um segundo sequer. Na linda e rockeira "The Stars (Are Out Tonight)", um hit daqueles que não tem como deixar escapar. É viciante na medida certa. A letra é outro amor a parte. Segue vendo: "(...)Waiting for the first move. Satyrs and their child wives. Waiting for the last move. Soaking up our primitive world. Stars are never sleeping. Dead ones and the living." E continua na esperança eterna do desejo. "And they know just what we doThat we toss and turn at night. They're waiting to make their moves. But the stars are out tonight" Outras diversas canções do album se mostram incriveis, como as batidas viciantes de "Love is Lost", e nas deliciosas letras dela. "Say hello to the lunatic men. Tell them your secrets. They’re like the grave. Oh, what have you done? Oh, what have you done? Love is lost, lost is love". A minha favorita ainda consegue ser outra. A faixa-titulo "The Next Day", de acordo com o produtor de longa data de Bowie, Tony Visconti, que assina esse album, a faixa nasceu assim como boa parte de outras musicas do album, de livros de historia medieval inglesa, disse ele numa entrevista a Rolling Stone. O refrão aterrorizante traduz bem o quão influenciaram os livros. "Here I amNot quite dying. My body left to rot in a hollow tree. Its branches throwing shadows. On the gallows for me. And the next day. And the next. And another day.". A romântica "Valentine's Day" é outra que me lembrou um pouco a fase do disco "Heroes" e cria um som com uma roupagem nova, numa composição bem acabada.

Bowie congelando em Nova York.

Mas talvez, por trás de todo o álbum, a bela "Where Are We Now?", é a que explica não só a fase do músico como a sua disposição em gravar esse disco. Olhando os mortos e vivos que passaram e não se encontram mais. Os momentos e experiencias que trazem a ele ao período em que ao lado de Brian Eno estiveram em Berlim gravando o que seria uma trilogia de álbuns, "Low" (1977), "Heroes" (1977) e "Lodger" (1978) Seja os discos gravados na época que redefiniram sua carreira, em meio a todos os experimentos sonoros foi um dos maiores percursores de uma música eletrônica que continuamente viria a influenciar o que seria produzido de rock e até mesmo no gênero pop da época. Esse período parece estar entre aquilo que mais sente recordações. O que pode ser notado inclusive pela capa do disco "The Next Day", uma copia do seu album da época, "Heroes", com uma faixa branca contendo os dizeres do titulo. Foram momentos de redefinição de si mesmo e de sua carreira. As letras da canção trazem bem isso. "Twenty thousand people. Cross Bose Brucke. Fingers are crossed. Just in case. Walking the dead. Where are we now?" E ao final dela, ele traz talvez aquilo que parece definir o que no derradeiro das coisas o que mais vale a pena, pode saber que sempre haveria a esperança e o sentimento de missão reconfortante de que tudo valeu a pena. "As long as there's sun. As long as there's rain. As long as there's fire. As long as there's me. As long as there's you."

O grande Bowie inspirou diversos músicos e bandas. Inventou novos generos musicais (Entre eles, além do mergulho na música eletronica que deu nos anos de Berlim, o "new wave" e o "new romantic" das fases do inicio dos anos 80, o folk psicodélico e as batidas africanas.). Foi o icone visual de uma geração e continua causando ainda em 2013. Um daqueles músicos para se reverenciar. Já que sempre haverá um espaço para o fazermos. Fica a minha torcida para que escreva mais album, já que não fará turnês e nem promoção do novo album, ficamos na expectativa.

Vários BOWIES...



Saxofone e Bowie. 

Bowie fazendo a maquiagem que seria capa do seu icônico álbum, "Alladdin Sane"

O andrógino e extraterrestre Ziggy Stardust. Um ser plastico e artístico.







O pequeno David Robert Jones.  Mal sabia que seria uma lenda da música.




Relampago! Na capa do disco "Alladdin Sane"

E seu mais novo disco, na integra.




O magro Bowie em seus tempos de Ziggy.