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quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Histórias de 2017. Contos sobre os melhores discos, shows e histórias de vida.

*O mérito todo ainda é de Star Wars com um polêmico novo filme, um ano em que nos apaixonamos por Gal Gadot e vibramos com aias vestidas de vermelho. Claro que Kendrick Lamar reinou e me envolvi em viagens pela América Latina, fui em um baita show do Arcade Fire e tive esperanças de achar uma jóia rara que não existe afinal.

BBC foi com o U2 para o beco do Batman na Vila Madalena. 2017 QUE ANO.


Viver em 2017 foi descobrir a si mesmo de diversas formas e maneiras. A capacidade que temos de lidar com o mundo torna peculiar a nossa propria identidade. Ao invés de imaginar o ano nesse começo de texto sob os filmes, livros e canções que experimentei vou falar sobre o que eu fiz de grande nesse ano. Grandes coisas morrem junto de nós mesmos, exceto se elas falarem por si só. Um instante em que pude dizer 'gosto muito de você' encoberto na indiferença dos tempos em que vivemos seria um ato de grandeza. A paixão se perde na mensagem e vai parar no vacuo das horas de dias. Me apaixonei sim nesse ano, mas foi mais por coisas do que por pessoas, o que me passa a mensagem de que deixei de amar algo real. Duas coisas moldaram a grandeza desse ano para mim: a viagem monumental para Chile e Argentina e ir morar sozinho que vai ter um upgrade em 2018, mas fica aqui os passos iniciais neste ano.

Quando me perguntam como foi o meu ano, eu sei que foi de mudanças. Nessa toada toda sei que a arte em forma de expressão inquieta e indomável esteve presente em tudo aquilo que experimentei nesse ano. Agradeço a Deus por estar vivo em 2017 e ver um show ousado como o do Arcade Fire em São Paulo com a turnê do disco lançado esse ano, o opulente 'Everything Now'. Estive também no show do U2 com a turnê comemorativa dos 30 anos do album The Joshua Tree em que Daniel Lanois esteve no palco recebendo os aplausos merecidos por ser parte dessa obra em um concerto memorável.

Deus me abençoou com o sentimento de inquietação. Estive em uma profusão de necessidades diversas ao buscar ser um homem capaz de responder ao aflito sentimento de busca por experimentar o medo de viver pobre ou morrer sabendo que fez o que precisava. Nesse tempo o que eu fiz foi acordar e perder o ar de repente quando vi ao redor de mim um outro alguém incapaz de ser eu mesmo. Eu lutei contra isso e contra imagens. O que fiz foi criar o meu próprio modelo de pessoa nesse mundo.

Achar um consolo seria um caminho fácil se trouxesse respostas para dores da vida. A solidão tem resposta sobre isso. Ela diz que não somos mais como antes e joias raras nessa vida se escondem na necessidade pelas realizações de algo grandioso. Grande e memorável como os sonhos que ainda carrego das coisas que ainda não vivi. E que com certeza vou estar atrás em 2018.


... Estou perdendo a minha idade, mas eu estive em 2017 e ouvi muita música

Para variar ouvir música significou horas e horas e horas com os aplicativos do Apple Music, Spotify, TIDAL, BBC Radio Player, Popload Radio (Brazil, zil, zil) abertos e botando para quebrar. Ouvi muito mesmo, e em todos os possiveis e impossiveis lugares. No metrô, no ônibus, nas ruas brasileiras, chilenas, argentinas, paulistanas e seja lá onde estava: carregava a pulsação de uma criatividade incrível de produtores, mixadores, engenheiros de som, artistas, músicos.

Em James Murphy com o seu arrebatador retorno com o LCD Soundsystem testemunhamos a capacidade de render um clássico (mais um) mesmo depois da ressurreição da banda. E que retorno. American dream é uma ode sobre esses tempos. Em Kendrick Lamar e o seu DAMN. o sentimento foi de estupendo torpor com um som político, forte e outro clássico instantâneo desse ano. Assim como em St. Vincent que se veste de pop para proclamar um ato de bravura contra nós mesmos e nossos costumes. Na faixa 'New York', ela faz uma canção íntima e pessoal sobre amizades e perdas. Claro que Ryan Adams mostrou aqui quem faz canções sobre perdas e corações partidos de cair o queixo. No seu 'Prisoner', o artista norteamericano desnuda o medo da solidão com tanta intimidade que nos leva junto consigo. Assim como Father John Misty e o seu 'Pure Comedy' que desconstrói a América de Trump e a nossa sociedade como um todo.

Lamar mostra que é o maior artista dessa década com o seu DAMN.


Um som mais eletrônico, guitarras pesadas e um desejo de libertar-se de si mesmo. Em 'Sleep Well Beast', o The National ainda mantém a mesma sensibilidade nas composições e isso os faz uma banda mais completa com o tempo. Do outro lado do atlântico temos os franceses do Phoenix trazendo um disco novo caloroso como as ruas da Itália no verão. 'Ti Amo' é o sexto álbum da banda liderada pelo saltador de platéias Thomas Mars.

Se o ano de 2017 teve um álbum profundo e envolvente que tente chegar perto do novo do The War On Drugs, o grandioso 'A Deeper Understanding' vai ficar para trás. O vocalista Adam Granduciel, que ao vivo já causa, aqui nesse disco novo explora novos caminhos com melodias mais envolventes e melodias mais interessantes, como na dolorosa e estupenda 'Pain'. Um disco para guardar na parede.

A dupla mais gente boa do indie Kurt Ville e Courtney Barnett juntos fizeram um album genuino em muitos aspectos. 'Lotta Sea Lice' tem a assinatura dos dois, como se eles pudessem ter um filho juntos, unindo o que caracteriza bem o som de ambos, em um resultado bem mais do que satisfatório.

Na categoria sons que falam sobre amor perdido e um certo fim da inocência temos dois segundos álbuns de novos artistas de 2013 que estão de volta. Em 'Something to Tell You' das babies do HAIM e a mega super estrela Lorde com o seu 'Melodrama' trazem o que de melhor sabem explorar. As primeiras trazem aquela pegada Fleetwood Mac com baterias envolventes E a segunda bebendo de Phil Collins e Kate Nash. Dois discos tão dentro de si que fazem um dos mais belos registros da música feita neste ano, com um olhar no passado e caminhando no presente.

Babies HAIM de volta com o seu melhor trabalho em 2017.


Os irmãos Gallagher retornam em um duelo onde ambos saem muito bem em qualidade de seus respectivos álbuns. Liam Gallagher retorna com o seu primeiro album solo carregando boas composições e melodias que remetem ao seu tão amado Oasis. Já Noel Gallagher e o seu High Flying Birds mergulha no que ele próprio chama de um pop cósmico. 'Holy Mountain' e 'If Love is the Law' sem dúvidas já são uma das melhores coisas que o compositor da ex-banda de Manchester criou.

Bandas consagradas também conseguiram retornar a boa forma nesse ano. Neil Young trouxe dois novos trabalhos. Um antigo gravado nos anos 60 que ganhou a vida em 2017 ('Hitchhiker') e outro super recente com a sua banda Promise of the Real, 'The Visitor'. Robert Plant traz um dos seus melhores trabalhos de sua carreira com 'Carry Fire'. Assim como Morrissey que traz o seu 'Low in High School' com incríveis composições. Outro destaque vai para Thurston Moore que apresenta o seu 'Rock'n Roll Consciousness', que inclui uma faixa de somente 16 minutos que já é uma das melhores canções do ano.

O Arcade Fire que já virou banda consagrada retorna com o peso de discos extremamente consagrados com um disco ousado e completamente diferente do som anterior da banda. Em 'Everything Now', a banda traz reggae, sintetizadores absurdos e puro som vindo ali de ABBA e bandas dos anos 70 e 80. Uma deliciosa viagem por sentimentos humanos que se perdem com um mundo muito informado e acomodado com seu consumo que acaba perdendo a si mesmo.

Tudo Agora. Arcade Fire retorna em 2017 com o seu trabalho mais ambicioso. 


E claro teve U2 e o seu 'Songs of Experience' que tomou vida após anos em formação. Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. desnudam temas como mortalidade, motivações na vida, amor e família em um disco muito poderoso e envolvente.

Queens of the Stone Age e Foo Fighters que farão uma tour pela América Latina em 2018 retornam com os melhores discos de suas carreiras em 2017. Os primeiros trazem o seu de inicio polêmico album com o renomado produtor e DJ Mark Ronson chamado 'Villains' que acabou carregando o espírito da banda, desde os seus primordios. E o segundo com o seu 'Concrete and Gold' volta às origens de seu passado mesclando um som mais rock como o que era feito nos anos 90 por eles proprios.

Top 5 - Albuns do ano
1 - Ryan Adams - Prisoner
2 - Arcade Fire - Everything Now
3 - St. Vincent - MASSEDUCTION
4 - Spoon - Hot Thoughts
5 - Phoenix - Ti Amo

Ryan Adams fez o melhor álbum de 2017 muito pela sua capacidade de saber destrinchar sentimentos. Em 'Prisoner' vemos um compositor exímio e consciente de sua genialidade em divagar sobre o que amar significa de uma forma clara e por vezes sem quaisquer filtros. Na faixa 'Haunted House', Adams nos permite observar atentamente cada detalhe do lugar deixado pela amada no espaço real ou metafórico do relacionamento entre eles. Em outra faixa, a grandiosa 'Outbound Train' temos Adams trazendo em sua letras a sua visão moldada sob guitarras bem construídas e que crescem a medida que forma uma certa urgência, ao passo em que a canção encaminha-se ao refrão. Impossível não imaginar o que significa um coração partido ao ouvir esse disco, um dos retratos mais íntimos já realizados por um artista.

O show do ano foi o do Arcade Fire com a turnê Infinite Content. Em São Paulo, a banda de Win Butler faz um dos mais empolgantes shows ao vivo já visto por esse interlocutor. O mundo anda de mal a pior com tanta informação que nos perdemos ao redor de pessoas que não conseguem nutrir discernimento com o que é real ou não. No trabalho da banda vemos sobretudo no recente disco lançado esse ano, o monumental e muito subestimado 'Everything Now' essas fissuras expostas onde as pessoas não conseguem amar, viver, compreender informações. Ao vivo, a banda em um dos raros momentos em que somente o Arcade Fire conseguiria tal proeza vemos pura energia saindo do palco, onde nas letras desse disco inspirado por Talking Heads, Abba e na melodia entoada pelo público ali presente no Anhembi entregou um dos mais honestos retratos da simbiose música e sua importância com a do transmissor da mensagem a banda ali em cima de um palco com telões gigantes e cordas percorrendo o palco como em um ringue de luta. A banda ainda no término desceu o palco e foi batucar com a escola de samba Acadêmicos de Tatuapé. Em pleno Anhembi. Que show.

E feliz 2018 para todos!


domingo, 5 de fevereiro de 2017

Histórias de 2016. Contos sobre os melhores discos, filmes, séries e histórias de vida.

*Nada vai tirar o mérito de que tivemos um ano com novo disco do Wilco, show(s) do Wilco em São Paulo, Louis CK fazendo a melhor série dos ultimos tempos e um Star Wars tão majestoso.


Alec Baldwin imitando Trump. Os EUA foram a loucura. 


Vou começar a lista que todos os anos faço juntando tudo o que me impressionou e quero ser breve. Não houve um 2016 ruim. Não concordo com esse julgamento feito em todo canto. Separar frustrações e decepções numa caixa de 365 dias nos faz crer que haverá uma outra caixa que vai ser aberta e por ai vai até o virarmos pó de estrelas novamente. É uma forma de ver o mundo em caixas e não numa longa pista de corrida, que no meio do caminho tropeçamos, caimos, liberamos nossas endorfinas e conquistamos muitos podios e ficamos atras as vezes. O que aconteceu ano passado nos faz estar mais preparados para viver e não a aceitar que vivemos para sempre. Pessoas morrem, queridas como David Bowie, Leonard Cohen, Carrie Fisher, Prince, por ai vai. Pessoas elegem e apoiam figuras que nos dão nenhuma inspiração, pelo contrário, lideres que vieram para causar discordia. Pessoas ficam tristes. Eu fiquei muito. No final, isso tudo nos faz despertar do medo e da frustração e necessário para aprendermos a cultivar as nossas esperanças e confiança. Duas frases de dois pensadores do país que mais nos decepcionou em 2016 nos servem de espelho para terminar essa introdução minha do que foi os 365 dias que se passaram. A primeira de um pastor e uma das vozes mais influentes do protestantismo nos Estados Unidos, Henry Ward Beecher. "Our best successes often come after our greatest disappointments." ("Nossos melhores sucessos vêm depois de nossas maiores decepções") e a de Martin Luther King, que disse "We must accept finite disappointment, but never lose infinite hope." ("Nós devemos aceitar a decepção finita, mas nunca perder a nossa esperança infinita").

O que eu lembro dos filmes que eu vi...

The Lobster. De longe uma das obras mais inteligentes e interessantes do ano que se passou.


Apesar de estar de saco cheio de filmes de super-herois, Deadpool e Guerra Civil: Capitão América foi boas surpresas. O primeiro é um dos melhores filmes já feito nessa safra (original, corajoso e nenhum pouco censurado). Os filmes que venceram o Oscar, O Regresso sem duvida virou já um clássico, pela forma como foi filmado e pelos efeitos e a camera do diretor Alejandro Gonzalez Inarritu. Zootopia me chamou muita atenção também, filme de animação com tema de adulto que vai de se aproveitar dos outros a mostrar como não é facil a vida. O novo do Nicolas Winding Refn, "The Neon Demon" é uma das coisas mais vicerais e profundas do ano, que só perde para "Elle", do Paul Verhoeven. Desconstroi todas as nossas boas intenções e formas de lidar com o certo e o errado. Colin Farrell faz a mais brilhante interpretação de sua carreira no genial "The Lobster", do diretor grego Yorgos Lanthimos.

Rogue One, de Gareth Edwards é um filme muito bem feito e que nos enche das melhores sensações que um filme de Star Wars pode proporcionar: emoção, nostalgia e personagens muito bem feitos.


"There's a 97.6 percent chance of failure". K2SO melhor personagem.


O que mais me chamou a atenção sem duvida foi Manchester a Beira Mar. Drama poderoso, bem escrito e capaz de nos tirar do chão quando Casey Affleck e Michelle Williams discutem, depois quando se encontram anos depois. Poderoso e profundo. A Chegada faz algo assim também, mas aos poucos. Dennis Villenueve faz uma obra sobre nos mesmos e nossos conflitos internos, quando uma invasão alienigina parece ser capaz de despertar nossas reações mais profundas. Sing Street, um filme modesto feito pelo grande diretor irlandês John Carney, sobre garotos que formam uma banda parece ser um baita filme, quando termina um filme avassalador. O singelo torna gigantesco. Sem contar "La La Land" que estreou no começo já desse ano, mas é um filme que saiu ano passado e chegou aqui esse ano antes de eu escrever aqui. Ryan Gosling e Emma Stone vão ganhar todos os prêmios (e devem) pela forma unica de despertar o gênero de musicais para uma outra dimensão. Damien Chazelle, o mesmo garoto que dirigiu e escreveu "Whiplash" engata um filme que eleva o seu nome como a mais bela mente criativa de Hollywood.
 
Menções especiais ainda para: Sully, do Clint Eastwood, A 13ª emenda, documentário da Ava DuVernay, Dois Caras Legais, de Shane Black e Slow West, de John McLean que só vi ano passado.



O que eu lembro dos discos que eu ouvi...

Bowie nos deixa com uma obra prima. Blackstar é um adeus ao mundo em forma de música.


Começo pelo disco que abalou o ano. 'Blackstar' seria apenas o novo disco do grande David Bowie, se não acabasse sendo o seu derradeiro e postumo album. Com canções como 'Lazarus', que é uma confissão de sua morte, Bowie nos avisa "Look up here man I am in heaven. I got scars it can be seen." O seu ultimo disco é uma obra prima acidental. Traz a beleza da vida e da morte, em versos que caminham para nos levar para a finitude de toda uma vida e o que nos espera. Com oito musicas, o disco já entra para um dos melhores dos seus discos.

Sem duvida houve outros discos tão impressionantes quanto o de Bowie. Beyoncé realizou um dos seus mais ousados discos. LEMONADE tem o vigor de um discurso de protesto a favor de feminismo e preconceitos raciais. Faixas como DONT LOSE YOURSELF, parceria com Jack White soa como um Led Zeppelin junto de sua voz marcante. FREEDOM talvez a mais poderosa canção. Radiohead voltou com um disco profundo, com letras que norteiam a nossa busca por respostas. 'True Love Waits' assim como outras canções já haviam aparecido em shows, mas aqui no disco 'A Moon Shaped Pool' se torna um hino. Destaque para 'Daydreaming'. O rebelde Kanye West pode ser um completo perdido na vida real, mas nos seus discos ele dá o seu melhor. 'The Life Of Pablo' é uma obra prima cheia de nuances e com canções unicas. 'Ultralight Beam' é um hino gospel que abre o disco majestosamente. 'Famous' e 'Waves' são ótimas canções.

Angel Olsen fez um baita disco. Quem é ela? "My Women" é um instantaneo disco que catapultou a carreira dela. Dizem que os seus shows são ainda melhores. Um dos melhores discos de rock do ano. Em se tratando de rock, o melhor sem duvida é dos Car Seat Headrest, o brilhante "Teens of Denial". O disco é repleto de sons que vão até nove minutos, mas não fica chato. As guitarras e baixos constroem sutilezas, sons etéreos e a capacidade de transcender o sentidos. Wilco retornou com o excelente "Schmilco", trazendo menos a profundidade do ser humano, para tratar de sentimentos que nos remetem a mémorias de infancia, primeiros amores, decepções, vitorias.

Os ingleses do The 1975, e o seu "I Like It When You Sleep, for You Are So Beautiful Yet So Unaware of It" alardeado como melhor disco de 2016 pela NME é um dos belos discos do ano, com canções muito boas. A banda Fat White Family trouxe o arrebatador "Songs For Our Mothers" com a já inesquecivel "Whistest Boy on the Beach". Os The Last Shadow Puppets fizeram um disco incrivel, o 'Everything You Come to Expect' e o EP fantastico com direito a cover de Leonard Cohen, 'The Dream Synopsis". Ao falar de Leonard Cohen, esse foi outro grande nome da música a nos deixar com um recente disco. "You Want It Darker" fecha uma discografia inigualavel de canções que já ficaram para sempre guardadas em nossas mentes.

Parquet Courts vai fundo no novo disco num tom mais pop que os experimentais ultimos discos. "Humam Performance" dialoga com a vida ordinaria do dia a dia, aos molde de Talking Heads, cria hinos capazes de nos levar a compreender as nossas vidas através do espelho. Um dos maiores retornos desse ano foi dos rappers do A Trible Called Quest. Com o discaço "We Got From Here... Thank You 4 Your Service" eles foram além do comum mais uma vez e entregam canções poderosas para esses tempos sombrios que surgem.

Fonte: Scream Yell - Show do ano: Wilco no Auditorio Ibirapuera.


Menções especiais para: Iggy Pop e o seu "Post Pop Depression", Blood Orange trazendo o lindo "Freetown Sound", PJ Harvey e o seu disco de protesto "The Hope Six Demolition Project", Kings Of Leon e o pop interessante "WALLS", o retorno de Richard Ashcroft com o belo "These People", Pixies trazendo o som poderoso em "Head Carrier", Band Of Horses e o bem divertido "Why Are You OK" e o brilhante novo album do Jimmy Eat World, "Integrity Blues".


O que eu lembro das séries de TV que eu vi...


As crianças e seu RPG. O mundo que saiu do jogo e virou realidade. 'Stranger Things' marca a cultura pop do ano.


A "eleven" ou simplesmente "él" deixou as nossas cabeças cheias de questões mal resolvidas. A série 'Strange Things' foi um dos maiores acontecimentos na cultura pop no ano que se passou. Graças aos irmãos Matt e Rosss Duffer e do produtor e diretor Shawn Levy, uma história saida dos anos 80 com direito a referencias da época (da trilha sonora as citações de filmes), três garotos mais a misteriosa "eleven" saem em busca de pistas que levem ao paradeiro do amigo deles que desapareceu por razões misteriosas.

O ano que se passou mostra sem duvida que estamos na era de ouro da TV, com produções criativas e com um peso maior que o cinema, como palco para as grandes obras audiovisual. O maior exemplo disso são séries como Atlanta, criada pelo músico, ator, futuro Lando Calrissian Donald Glover, que mostra um rapper, um amigo e seu primo em dialogos existenciais em busca de sucesso em meio a dura realidade que vivem. A profundidade só é vista de longe, nas cenas, dialogos. BoJack Horseman, desenho do Netflix e This Is Us seguem pelo mesmo caminho.

Os gigantes da transmissão por streaming dominaram mais uma vez o ano. Netflix, Amazon Prime e Hulu (ainda não presente no Brasil), mostram que as gigante tem de competir o máximo que podem. A HBO, Fox, Showtime, Starz, entre outras mostram estarem trabalhando bem o suficiente para competirem.

O mega estrondo Game Of Thrones foi a grande série da HBO, que agora deixa mais duas temporadas antes do final da série para sempre. O final da ultima temporada mostra que as coisas estão chegando a um final incerto. Os ecos de poder em mãos erradas ao final lembra bem o que os proprios norte-americanos estão vivendo. A rainha dos dragões agora segue para a maior batalha de todas pelo trono. Aonde isso vai nos levar?

Em paralelo, a HBO já deixou as cartas expostas para a sucessão de GoT com o western futuristico Westworld. A série de Jonathan Nolan, JJ Abrams e Lisa Joy tem um roteiro absurdo, atuações acima da média. A trama nos coloca dentro de uma métafora sobre a nossa vida humana em paralelo a de um mero robô. A trilha sonora com Radiohead, The Rolling Stones no piano é um dos pontos alto. O compositor da trilha é o mesmo de GoT, Ramin Djawadi. Outros destaques execelentes da HBO foi Veep, com uma surpresa no final da temporada. Julia Louis-Dreyfuss continua acima da média; The Night Of, trazendo debates raciais em meio a um crime sem solução. A genial Silicon Valley, na sua melhor temporada até aqui. Girls na penultima temporada. A sensacional série 'Vinyl' com Martin Scorsese, Mick Jagger e Terrence Winter não sobreviveu a uma segunda temporada, mas deixou uma incrivel experiencia visual, auditiva vibrante. O ator Bobby Cannavale está absurdo como o dono de uma gravadora em meio a efervecente Nova York dos anos 70.

Claire Foy estonteante.


A Netflix teve o seu ponto alto, além da série da "eleven", com a história da rainha Elizabeth no começo de seu reino como rainha. 'The Crown' escrita por Peter Morgan expõe os dramas vividos pela ainda jovem rainha (vivida pela atriz absurda de boa Claire Foy) em busca de dialogos com o parlamento, seus problemas em familia, primeiro com sua irmã e posteriormente com seu marido. Um requinte em fotografia, trilha-sonora, edição, figurino, cenários estonteantes. É impossivel estar indiferente a essa série.

Outra atração da plataforma de streaming foi a nova temporada de Black Mirror com um primeiro episodio já classico, sobre os vicios na exposição causada pelas redes sociais. Destaque ainda para Love, escrita por Judd Apatow, Master Of None, escrita e estrelada pelo ator Aziz Ansari. The OA, produzida pela produtora de Brad Pitt.

Louie é uma série incrivel do gênio do stand up Louie CK, mas se podemos dizer que ele esteve em um projeto que beira a uma obra prima é a série 'Baskets' da FX. Com Zach Galifianakis no papel principal se dividindo em dois papéis hilários, ainda não chega perto do quão é hilário sua mãe na série. O ator Louis Anderson faz Christine Baskets, uma dona de casa gorda a ponto de entrar em coma por causa de uma diabetes contraida pela dieta comum a todo norte-americana (baseada em fast-food e comidas cheias de calorias). Outro destaque é a Martha (interpretada por Martha Kelly). Chip Baskets (Zach) é um palhaço que estuda como ser palhaço na França. Lá ele se apaixona por uma francesa ambiciosa. O seu destino acaba sendo a de um drama sem fim, mas no fundo de tanta coisa ruim, os roteiristas aqui extraem o melhor da comédia no ano.


Louis CK atrás das camaras e Zack Galifianakis. Geniais em 'Baskets'

Menções especiais para: Mozart in the Jungle, da Amazon Prime, com Gabriel Garcia Bernal; Halt and Catch Fire da AMC, com uma terceira temporada boa; Red Oaks, da Amazon Prime, produzida por Steven Soderberg, a assustadora 11.22.63, com James Franco e produzida por JJ Abrams junto com Stephen King, baseado em sua obra; Animals, desenho da HBO sobre pombos, gatos, cães; Catastrophe, brilhante série inglesa com os atores Rob Delaney e Sharon Horgan como um casal e um bebê em dialogos cheios de referencias e situações hilárias; Fleabag, outra série inglesa com a revelação Phoebe Waller-Bridge no papel de uma mulher na casa dos trinta superando tragédias pessoais; High Maintenance, da HBO baseada numa série de curtas exibidas pela internet sobre um sujeito vendendo maconha; Outcast, da Fox, criado por Robert Kirkman, o mesmo de The Walking Dead. Creppy as hell; a segunda temporada de Mr. Robot, com uma trama não tão interessante quanto a primeira, mas vele a pena dar continuar vendo; The Night Manager, série incrivel com Tom Hiddleston e Hugh Laurie, da BBC com a AMC; The Get Down, uma grande surpresa vinda do diretor Baz Luhrman, australiano diretor de Moulin Rouge, O Grande Gatsby, que cria uma história brilhante sobre o hip hop em meio a um carrossel de musicas, danças e improvisos de hip hop; Ash Vs Evid Dead, Blunt Talk, Insecure, You're the Worst, Man Seeking Woman fecham a lista.

E claro ainda tivemos o futebol brasileiro...

Fonte R7 - É campeão, rs

quarta-feira, 30 de março de 2016

A música ficou chata, ela vai mudar e nunca mais será a mesma

* Essa vai para os corações cheios de vontades de não ouvir mais os mesmos top 20 nunca mais na vida


Um Kevin Parker ouvindo sons e fazendo sons. Photos by Photographed by Matt Sav


O som mudou mas ainda continua o mesmo. Dançamos, choramos e corremos atrás de sons que definam nossos momentos nessa vida na Terra. Vida sem sentido, cheio de vazios. Ouvir canções se tornaram uma forma de reagir as dores dessa vida. A expressão de fúria, calma e vertigem. O som que era blues, virou rock, que ficou chato e virou um rock ainda mais rápido e curto, o punk, que trouxe o grunge, que antecedeu o rock progressivo e new wave. A certeza é que não somos mais compostos por gêneros - sejam musicais, políticos ou sexuais - digo no presente, o presente de fato. O ano de 2016 pode ser definidor para os rumos da música, como expressão artística e para a relações e reações entre indivíduos.

E nesse vai e vem dos dias de hoje, fazer música virou uma expressão de construir a mistura exata do que se ouvir. O hip hop teve um papel tão importante quanto o jazz e o blus nessa mistura. Assim como sons eletrônicos, provenientes dos anos 80 em diante. O jornal inglês The Guardian postou nesse mês uma reportagem sobre esse tema escrita por Peter Robinson, editor do site Popjustice e que contribui para a NME. A música feita hoje, numa rápida observação panorâmica pode ser muitos sons em uma só música. David Bowie, sempre a frente do seu tempo, pareceu em seus últimos discos em vida, querer mostrar como a música é no futuro: sem rótulos.

Músicos novos e os mais contemporâneos buscam não mais um som, como o rock'n roll e o hip hop. Buscam a expressão de sons que ouvem e se identificam. A neo-zelandesa Lorde, aposta de Bowie como uma imagem do futuro da música, mescla o rap com o rock, transitando pelo pop e fazendo sons que invadem pistas eletrônicas. Seu som pode ser rotulado de Alternativo, o que nada mais é do que um rotulo que simplifica a essência desse som modificado presente hoje. O Indie, que na realidade, não é independente, já que Florence + the Machine deixou de ser indie depois de seu segundo disco. O que marca a música, como expressão artística, é a sua multiculturalidade. O Arcade Fire, ao expressar na música de seu último disco, "Normal Person", antes de iniciar a canção, o desabafo: "Oh man, Do you like rock and roll music? 'Cause I don't know if I do", indica bem o que a música é hoje em dia, quando uma das maiores bandas de 'rock' expõe isso, em um disco repleto de influencias caribenhas.


Finestra e sua busca pelo som de rock perfeito. Vinyl/HBO.


A Rihanna hoje faz cover do Tame Impala e o Ryan Adams faz um disco todo de cover da Taylor Swift. Justin Bieber tem hits que não são pop convencional, e sim belas gravações moldadas por Diplo, o produtor influenciado por tudo quanto é gênero. A NME é uma revista gratuita que coloca o Bieber na capa, porque não diz mais o que se dizia décadas atrás. As batidas, o furor e a energia criativa das músicas feitas no passado representam exatamente aquilo que não existe mais. Gêneros musicais são importantes hoje como ingredientes, e não mais como o prato principal. Quem busca referencias no Every Noise at Once, que acha playlists no Spotify ou Tidal, não mais se orienta por tipos. O que buscava Richie Finestra, na série produzida por Martin Scorsese e Mick Jagger, na HBO, em sua gravadora, é o som de um tempo que se misturou a todos os tempos até aqui. O rock se sedimentou, como já confessou Sergio Pizzorno, guitarrista do Kasabian. "O rock está morrendo." Outro que seguiu nesse desabafo foi o guitarrista da lendária banda de rock Kiss, Gene Simmons, em uma entrevista para 'Esquire':

"There was an entire industry to help the next Beatles, Stones, Prince, Hendrix, to prop them up and support them every step of the way. There are still record companies, and it does apply to pop, rap, and country to an extent. But for performers who are also songwriters — the creators — for rock music, for soul, for the blues — it's finally dead. Rock is finally dead."

A música está chata. Estivemos um tanto de tempo parados olhando para o pop do final dos anos 90 até o inicio dos anos 2000, o rock, o hipo hop, a mídia musical segmentando gêneros. Esse tempo acabou, mais ainda respiramos a incompreensão do barulho que ainda causa a falta de criatividade. Não ouvimos mais canções com o peso do passado, entretanto esse é o futuro. Não houve mais bandas que expressassem a atitude de um tempo. O Kanye West tem atitude, mas é burra - não desmerecendo sua genialidade. Tudo está distribuído entre nós. A solução, se essa é a solução, talvez seja não separar artistas e abraçar uma época que redefine o som, como abrangente forma de fazer sons. Será uma bela opção a ser dada.

Os Stones fazendo sons de uma geração. Fotos da Olympic Studios.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

2013 O ANO: Os 30 Melhores Álbuns do Ano

* O ano em retrospectiva para esse ouvinte compulsivo de discos sejam eles em vinil, CD's e em streaming.

O ano acabou e como sabemos 2013 foi para a música aquele ano que parece que tudo resolveu acontecer ao mesmo tempo. Da hibernação de grandes nomes da música (David Bowie), a lançamentos de grandes bandas sem o menos alarde (The Strokes), contrastando com lançamentos de grandes bandas com o maior alarde (Arcade Fire). 

Se fizessemos uma playlist só das coisas lançadas nesse ano teriamos uma profusão de canções que sempre serão lembradas por nossos filhos e netos e não custa lembrar que bandas que darão o que falar daqui a alguns anos lançaram seus primeiros albuns nesse ano. Exemplos que se expremem numa profusão sem tamanho. (Peace, Haim, Savages, Parquet Courts, Jake Bugg, Lorde, Palma Violets, Kurt Ville, por ai vai).

Não serei justo com essa lista. E nem tem como o ser. 2013 foi daqueles anos que 30 ainda é pouco. O correto seriam 200 albuns, mas soaria cansativo. Não é exagero meu. Esse ano grandes produtores voltaram fizeram novas coisas com grandes e novos artistas. Não vou encher a bola de 2013, já enchi demais. Seguem os 30 albuns que considero na minha opinião serem albuns memoraveis daqui para frente. 

30 - Primal Scream - 'More Light'


29 - Kurt Vile - 'Wakin In A Pretty Daze'


28 - Cults - 'Static'


27 - Yeah Yeah Yeahs – 'Mosquito'


26 - Neko Case – The Worse Things Get, The Harder I Fight, The Harder I Fight, The More I Love You


25 - James Blake - 'Overgrown'


24 - Suede - 'Bloodsports'


23 - Savages – 'Silence Yourself'


22 - Parquet Courts - 'Light Up Gold'


21 - Palma Violets – '180'


20 - Peace - 'In Love'


19 - Nine Inch Nails - 'Hesitation Marks'


18 - MIA – 'Matangi'


17 - Blood Orange - 'Cupid Deluxe'


16 - The Strokes - 'Comedown Machine'


15 - Queens Of The Stone Age – '...Like Clockwork'


14 - Daft Punk – 'Random Access Memories'


13 - Kanye West - 'Yeezus'


12 - Franz Ferdinand - 'Right Thoughts, Right Words, Right Action'


11 - Haim - 'Days Are Gone'


10 - Foals - 'Holy Fire'


9 -   Phoenix - 'Bankrupt!'


8 -   Paul McCartney- 'New'


7 -   The National - 'Trouble Will Find Me'


6 -   David Bowie - 'The Next Day'


5 -   Disclosure - 'Settle'


4 -   Lorde - 'Pure Heroine'


3 -   Arctic Monkeys - 'AM'


2 -   Vampire Weekend - 'Modern Vampires Of The City'


1 -   Arcade Fire - 'Reflektor'



Esse post terá uma atualização nas próximas horas com meus comentários para cada album...

domingo, 23 de dezembro de 2012

"Eu vi o futuro do rock 'n roll e ele chama-se Bruce Springsteen"



E completou dizendo: "Em uma noite em que precisei me sentir jovem, ele me fez sentir como se escutasse música pela primeira vez". Foi o então crítico musical Jon Landau que proferiu a tal frase que percorreu a mídia na época, inicio dos anos 70. O mesmo que posteriormente viria a ser empresário, produtor e amigo intimo do astro.

Um som saia de uma guitarra Telecaster em um ponto qualquer de Nova Jersey. Um garoto de vinte e poucos anos saia com sua guitarra e tornava em público o estrondo que suas canções ainda não tinham, mas que logo teriam. Em 1972, foi contratado pela CBS, que lhe entregou a alcunha de "novo Bob Dylan". Um garoto que trazia em suas canções a busca da identidade americana, num sentido libertário e inquieto que nos fazia chegar mais próximos dos aparelhos de rádio para prestarmos a devida atenção aos donos desse poder invisível, o simples trabalhador americano. O nobre e inquieto ser que vaga com seus anseios sendo demolidos por um sentimento de não pertencimento ao sonho americano. Sua voz ecoava num palco com tamanha eloquência que muitos consideram seus shows, a maior experiência ao vivo que se pode ter. Dada a energia e o poder que desmonta, trazendo canções demolidoras, que nos tomam de assalto e conduz a mente num misto êxtase e deslumbramento.

Bruce Springsteen, era o futuro do rock, e isso não era pouco. Ele demolia casas de show em Atlantic City, e fazia novos fãs a cada dia. Antes, teve que superar as dificuldade de uma vida sem recursos. Seu pai vivia de bicos e do que tinha para sustentá-lo. Ele nunca o encorajou a seguir na profissão de cantor, e sempre dizia que nunca daria em nada. A desilusão com a vida só o fez tornar amarga sua relação com o filho. Sua mãe, era secretária e foi quem comprou a primeira guitarra ao filho, após Bruce insistir demasiadamente. Ela foi uma das que viu nele uma vontade em ser um cantor. O que ela jamais imaginou foi que o filho se tornaria um dos maiores músicos da história, que viria redefinir o rock'n roll.

Após o contrato com a Columbia, Bruce trouxe seus companheiros de NJ  para formar o que seria a "E Street Band" e lançou seu primeiro álbum em 5 de janeiro de 1973, "Greetings from Asbury Park", uma declaração de amor a cidade e ao lugar onde nasceu, New Jersey. O álbum não engrenou, mas trazia as canções que se tornavam comentadas graças as suas apresentações ao vivo. Seu segundo álbum  "The Wild and The Inocent & The E Street Shuffle", lançada no mesmo ano, em setembro, teve o aval da crítica mas continuou sem grande apelo comercial. Foi então no terceiro e definitivo álbum que ele tomaria de assalto a América: Em 25 de agosto de 1975, o álbum "Born to Run" trazia um cantor estiloso numa capa branca vestindo uma jaqueta preta. O álbum foi difícil de sair e teve diversos contra tempos, problemas na criação das músicas e na coesão do álbum. O disco ficou em 3° lugar nos Estados Unidos em número de vendas. Ao final, a canção-título hoje é uma das mais extraordinárias canções de todos os tempos.

Tente ouvi-la ao vivo, na versão tocado pelo "Chefe", em Hyde Park, em 2009.


O disco seguinte, "Darkness on the Edge of Town", foi mais sombrio assim como foram os dois seguintes: "The River" e "Nebraska". As letras ecoando um sentimento de desilusão e arrependimentos, em um folk e um r&b que o consagraria em faixas como "Out in the Streets", "Hungry Heart", "Racing in the Streets", "Badlands" e "The Promise Land". Ali estava a fisionomia do americano em frangalhos, buscando formas de se achar em meio as dificuldades, em cacos, rachada. Sua popularidade era grande, mas ainda carecia de hits e um disco a altura do seu nome. Veio "Born in the USA", em 4 de junho de 1984. Uma onda tomou conta do país como um todo e seu nome estava nas alturas. Bruce Springsteen ganhava na capa, sob a bandeira americana, com sua guitarra, seu boné vermelho no bolso de uma calça jeans, a figura icônica dos anos 80. Sua fama ganhou o mundo e suas canções mostravam agora o orgulho americano. Canções como "Dancing in the Dark" e "Glory Days" possuíam melodias irresistíveis e dançantes, assim como todo o álbum que exalava uma America mais alegre, e com frustrações ao melhor modo que Bruce sabia passar, em melodias fáceis e sintonizadas com as pessoas comuns, que davam o seu suor durante o dia e vivia seus anseios de alcançar o "american way of life" em sua plenitude. A ideia do título do disco é em menção aos soldados que vieram do Vietnã e regressaram ao país. Ele, assim como muitos sofreram a perda irreparável de colegas e amigos na guerra durante a sua adolescência  e de certa forma lidou diretamente com a dor desse conflito. Mesmo assim, foi acusado por muitos na época de ufanismo e nacionalista pelo modo como o disco exprimia o apresso pela terra natal, principalmente pelo modo como o disco, as canções e os videoclipes expunham a bandeira americana e a força de um país.




Após esse trabalho, ele se separou da "E Street Band" e passou os anos 90 todo em carreira solo, trazendo  álbuns como "Tunnel of Love", "Human Touch" e "The Ghost of Tom Joad", que teve relativo sucesso. Se reuniu novamente com eles em 2001, após um bom tempo separados. O disco "Live in the New York City", foi o recomeço com a banda que o acompanhou desde o inicio. Logo seguinte, lançou "The Rising", em 2002, com referencia explicitas a situação do país após o 11/09. Vieram "Devils and Dust", "Magic" e "Working on a Dream". O mais recente trabalho, lançado neste ano, "Wrecking Ball", foi anunciado por seu manager Jon Landau como o retorno do "The Boss" em um disco visceral e intenso, nos moldes de "Born to Run". O 17° álbum em estúdio é o retrato dos Estados Unidos nessa traumática fase pós-crise, onde a ganancia de Wall Street corroeu o Estado e deixou muitos cidadãos desamparados. Uma corrida insensata pelo dinheiro, sob o olhos de uma casa branca desatenta e preocupada com suas guerras. Um país em construção, onde seus trabalhadores, os protagonistas dos seus álbuns vivem na penumbra sem empregos. Alheio a tudo isso, sentiu que podia contribuir, como sempre, com canções de superação e entusiasmo.

Na primeira faixa do álbum  "We Take Care of Our Own", é a voz da América se perguntando, "quem olhará por nós?". A música é poderosa como uma Born To Run, sem tanta daquele romantismo, e mais com um desejo de escapar tão somente, mas sozinho em meio a "armadilha" da vida. Em "Rocky Ground" e "Land of Hope and Dreams", o piano e as guitarras trazem a dor, mas com uma dose cavalar de esperanças. Verdadeiros hinos dessa geração, vindos de um senhor de 62 anos de idade. Ele brilha com maestria com sua guitarra Telecaster (sempre), soltando faíscas. O álbum todo é um dos melhores que ele já fez em sua carreira, e definitivamente o melhor da atual safra com a E Street Band. Apesar da ausência do saxofonista Clarence Clemons, que morreu em 2010, com quem dividiu os palcos, vida e estrada, a banda consegue dar uma voracidade tremenda como seu estivéssemos nos anos 70, 80, vivenciando o seu apogeu. E quem disse que eles não estão?  É impressionante. E de Bruce, temos a mesma força e energia das décadas passadas.

Ano que vem, vou comprar meu ingresso e vou ao Rio de Janeiro. Vou vê-lo. Pretendo dormir dias na fila para sentir de perto essa fúria que só quem já ouviu falar de seus concertos ao vivo, entende a minha expectativa. Sou fã incondicional desde quando vi o famoso videoclipe em que ele dança com uma jovem Courtney Cox, num palco, a música icônica "Dancing in the Dark". Ele é um dos artistas que quero ver ainda nessa minha vida, e não posso dar bobeira mesmo. Minha expectativa é de saber que é no ano que está preste a começar que o verei de perto. Em seu site está lá, e meu coração bate forte, por que desde 2007, ano que me lembro, foi onde me enfurnei em suas canções, buscando o que somente nelas me senti confiante em compreender e virei fã. Sempre pensando comigo mesmo, sua ultima vinda ao Brasil foi em 1993, num show no Parque Antárctica  no então estádio do Palmeiras. Saber que ano que vem ele tocará aqui no país é um alento.


Nesse ano foi lançada também sua biografia, "Bruce", escrita por Peter Ames Carlin, que conta sua vida particular, sua infância, seu sucesso e a sua consagração como uma das maiores lendas do rock'n roll. Revela seus sonhos e pesadelos, sua história. Quero ler antes de embarcar para conhecê-lo, em setembro do ano que vêm. Ele é uma pessoa que me inspira como ser humano, que buscou sempre alcançar seus limites e ultrapassá-los, quando jovem ao buscar mostrar-nos a força de um sonho, em se tornar um grande cantor. Todos que estiveram ao seu lado durante sua vida dizem que ele é uma das pessoas mais humildes e simples que já conheceram, mesmo sendo um dos grandes da música. Acho muito nobre isso, mas acima disso, gosto do modo como ele transmite sua música, com inventividade e criatividade mesmo tendo 62, e contando. Me inspira ele ter calcado sua história sem ambição desmedida e deslumbramento com o sucesso que teve.


Em sua carreira já ganhou dezenas de prêmios importantes, como vinte Grammys, quatro American Music Awards e um Oscar. Símbolo de uma America que vivia sua plenitude econômica e politicamente nos anos 80 e 90, ele mais do que traduz a força de um país, mas de sua incapacidade de se resolver seus anseios e fracassos. Ele traz para sua música, não somente os residentes do seu país, mas de todo o mundo, que se servem de letras que exprimam nossa fragilidade humana, e isso ele o faz como ninguém, porque o modo como molda as melodias e as suas apresentação ao vivo, nos faz perceber que apesar dos problemas, temos o exemplo do que há de melhor no espirito protestante e capitalista da América, que é esse sentimento de sempre se renovar e crescer, vindo do que há de melhor da música no lado norte do continente.

Incrível relato que deu a revista The New Yorker, sobre sua vida em 30 de julho desse ano. Emocionante. Links: http://www.newyorker.com/reporting/2012/07/30/120730fa_fact_remnick?currentPage=all

Ouça aqui o álbum que ele lançou em 11 de novembro de 2003, com suas maiores canções: