Pensando na vida: o filme de Desiree Akhavan que está na mostra paulistana.
Em tempos sombrios, somente o cinema pode nos proporcionar um meio de nos afungentar do medo e da dor de sobreviver a realidade. Como já diria o sábio Albert Camus, "Um homem sem memória é um homem sem passado. Mas um homem que não sabe fantasiar é um homem sem futuro". A fantasia sobre a vida nos pede para visualizar o desejo de alimentar os nossos sonhos, é por esse caminho que o cinema e as artes em geral nos convida a alimentar o intelecto e vislumbrar novas possibilidades e oferecer àqueles que o têm, a esperança de dias melhores. Que pode nunca chegar, mas que nos permite ter esperança de acreditar mesmo assim.
E é nesse clima de medo politico que a Mostra Internacional convida as pessoas a acreditar em histórias que vão contra o medo e nos provoca ousádia e esperança. Vou nesse espaço que deixei aos limbos por tempos em tempos, exercitar o meu senso crítico mas acima de tudo dialogar com as obras que vou ver nesse periodo de exibições ininterruptas de filmes. Filmes como "O mau exemplo de Cameron Post", da diretora Desiree Akhavan, "A Favorita", de Yorgos Lanthimos e os politicos "Infiltrado no Klan", de Spike Lee e o brasileiro "Rasga Coração", de Jorge Furtado e diversos outros.
O cinema, como a música e todo o tipo de arte sempre foi espaço para a manifestação de ideiais para um mundo melhor, seja esse um mundo possivel ou aparentemente impossivel. O mesmo Camus em seu livro Le mythe de Sisyphe (1960), já dizia: "L'absurde c'est la raison lucide qui constate ses limites". O absurdo será a razão lúcida que constata os seus limites. Nada passará incolume, intacto e inteiro. O mundo vai mudar e com ele os filmes estão aqui para contestar esse mundo e nos provocar ao pensamento. Essa Mostra vem a nós em um bom momento.
Entrei na fila do Espaço das Américas, com aquela sensação de ansiedade de quando algo extraordinariamente arrebatador está preste a acontecer. É uma sensação que se assemelha muito com aquela do corpo quando reage por instinto tentando alertar do perigo, só que aqui o inverso. Saí do meu trabalho nervoso, cheguei na Barra Funda nervoso. Até interagir com fãs de Bruce na fila. É aquele tipo de fãs que aqui no Brasil não se encontram tantos quanto na Europa onde o The Boss é venerado. Aqui devido as poucas vezes que apareceu no país (incluindo apenas uma unica visita em 1985, durante um evento dos direitos humanos realizado no estádio do Parque Antarctica), a pouca visibilidade que teve durante todos esses anos fizeram com que passe batido pelo Brasil sua vinda, comparado com outros países. Entretanto, seus fãs são devotos. Muitos vieram de diversas partes do país, e até de outros países. Vi gente de Portugal, Chile, EUA, que seguem como peregrinos os concertos da lenda da música. Música essa que transpõe barreiras continentais. Suas canções são hinos que não se silenciam ao passo dos anos.
Quando os portões se abrem as 19h, entro no espaço com o coração parecendo que não se contenta em permanecer entre ossos, carne e pele. Parece saltar em certos momentos. E o show nem sequer começou. Quando junto de duas garotas que conheci na fila, Mariana e sua mãe, fomos até perto do palco. Era uma visão bastante boa, facilitada por eu ter pego a pista Premium, que dava uma certa distancia consideravel da pista comum. Ali estavam pessoas que pude conversar. Sinto muito não ter pego contato com alguns ali. Pessoas que dão duro em suas vidas, passam por problemas financeiros, mudam de cidades, carregam histórias de vida, de superação, de relacionamentos, sempre com as canções de Bruce entrando, assim digo invandindo suas vidas como trilhas sonoras de filmes que surgem ao fundo da cena. Conheci um homem que estava com sua esposa. Nitidamente, por razões mil, os dois não pareciam estar num bom momento do relacionamento. O cara se mudou para Maringá/PR, acho. Sua mulher em São Paulo. Talvez a distancia tenha sido o pivo desse desgaste visivel em indiretas um ao outro do tipo "nem parece que você tem tanto tempo assim em casa...", coisas do tipo. Pareciam ser de um casal de classe média alta na faixa dos 30, 40 anos, que se desdobravam para manter o status financeiro como podiam, talvez até mesmo por terem filhos, enfim. O homem me contava ao lado de sua mulher a fascinação que tinha pelo Springsteen. Era um garoto e quando tocava uma de suas canções na rádio corria para escutar, cresceu comprava LP's e assim surgiu em sua vida uma garota (se tratava da sua mulher que estava ao seu lado no show) que também tinha o habito de comprar LP's do The Boss, e assim começou um romance que durou até os dias de hoje, custe a que custar. Eles me contavam que trocavam os LP's que ouviam, e conversavam, ele no caso nervoso puxava conversa com a garota que queria ter pra si como sua mulher. Engraçado ali divaguei, como as vidas e não só a deles, é só assistir ao documentário Springsteen and I, produzido por Ridley Scott, como pessoas no mundo inteiro tem histórias de amor, superação e amizade que se entrelaçam com hits como "Badlands", "Born to Run" e "Glory Days".
De repente, entra no palco Bruce e sua E Street Band enfurecidos ao som de guitarras que pareciam nos fazer acreditar que aquilo não parecia muito ser algo fácil de acreditar. Por recomendações feitas, Springsteen abriu seu primeiro show no Brasil com um clássico do rock protestante dos anos 70 de ninguém menos que Raul Seixas, a enérgica "Sociedade Alternativa". Estouro. A garota que estava ao meu lado, as centenas que estava ao meu redor simplesmente diziam "PQP", "Bruce!", sem terem o que dizer estasiados pulavam com as mãos ao alto entoando vendo um Bruce com sua Telecaster arrebentando e... cantando a música em PORTUGUÊS. Foi dificil não ficar estasiado. Foi um daqueles momentos da sua vida que você para e curte faiscas da sensação ali tomadas no ar, no ambiente do espaço. Foi foda.
Fonte: Scream Yell
Fonte: Scream Yell
Ele entrou no palco as 21h14, e logo soltou um "hello, São Paulo!" e em português disse "estou muito feliz por estar aqui". Tocou Raul em guitarras pesadas, e já logo soltou a incrível faixa "We Take Care Of Our Own", do mais recente disco "Wrecking Ball", razão da turnê que vem fazendo. Foi lindo. Num show que tocou por 3 horas e 17 minutos, 29 canções de sua carreira, soou pelo ambiente sons inesquecíveis que fez com Clarence Clemmons, morto em 2011 por decorrencia de um derrame, em discos incríveis como "Born to Run". Ali esteve faixas como "Tenth Avenue Freeze-Out", onde no meio do espaço das Américas atravessando a multidão tocou com o sobrinho Jake Clemons a faixa enquanto no telão mostrava imagens do tio eternizado e sempre lembrado por Bruce em seus shows. Em seguida embalou um clássico dos seus shows, uma versão do som dos The Isley Brothers, a barulhenta e dançante "Shout". Acompanhada de uma versão de "This Little Light of Mine", dos The Steeles. Foi quando o show enfim após visivelmente Bruce ter entregado seu melhor no palco, derramando suor e balões de água que estourava contra a si para apagar o calor que sentia após ter se jogado na platéia, para ser carregado por seus fãs até a outra base do palco no meio da multidão. Pulado, tomado cerveja de um fã, corrido, estremecido o ambiente com riffs célebres de hits como "Born To Run" que pós o lugar abaixo. "Dancing in The Dark", "Because The Night" e "Born in The U.S.A." E "We Are Alive", do novo disco.
Depois do bis, ele volta sozinho com sua gaita e um violão. Numa sensação atordoante e já sentindo falta do cara incrível que se entregou para todos os que foram até ali, fiquei meio triste até. Pensei vou ter que voltar pra casa depois disso e alimentar tudo o que aconteceu nessa noite que foi mágico. Um breve momento de nossas vidas que tudo parece tão grande demais, que o mundo em suas canções, em sua atitude não conseguem caber num show de mais de três horas. Que só voltando a fita em nossas mentes para aquele dia 18 de setembro de 2013 parece ser capaz de nós fazer entender o significado disso tudo. Afinal, um show do Bruce como a Rolling Stone elegeu como o maior show da atualidade, de um cara que já passou por tanta experiencia em sua vida, ainda é uma flama acesa de puro rock'n'roll. Seu show não é pra ser quantificado, e sim apreciado e uma grata felicidade durante aquelas boas horas que ali pôde proporcionar. A proposito ele volta sozinho para tocar sua dilacerante "This Hard Land", faixa que cela o disco de Greteast Hits que lançou em 1995. Uma canção que fala de lugares que fomos, estamos ou vamos um dia. Que fala que o aqui não é tudo o que vamos ter um dia, basta ter sonhos e fé que tudo é possível. Enfim, uma canção que deixa em aberto nossas vidas escritas por nós mesmos. Quando ele finaliza com esses versos: "Well if you can't make it stay hard, stay hungry, stay alive if you can. And meet me in a dream of this hard land", e engata com sequencias de gaita avassaladoras, uma parte de mim espera que possa ter essa sensação mais uma vez na vida. É torpente, tocante e memorável.
Valeu Bruce!
O lugar não atingiu lotação máxima de 8 mil, mas encheu de gente até.
Bruce prometeu que voltará mais vezes e não vai mais esquecer de aparecer pelo Brasil nas próximas turnês, todos ali ficaram aliviados em ouvir. Ninguém deseja esperar mais de 20 anos para vê-lo de novo por aqui.
Justin Young tocando todos os hits sensacionais...
Incrível dia. A banda inglesa do momento sabe balançar as estruturas.
O guitarrista Freddie Cowan, postando no Instagram oficial da banda horas antes no Grand Metropole.
Imagina. Rolando lá fora, diversos eventos da Virada Cultural, incluindo um (imperdivel?) pagode na praça da Republica, lugar de onde desci do metrô em direção ao reformado e suntuoso Grand Metropole (antigo Cine Metropole) para assistir ao tão (!) aguardado show da banda mais sensacional da Inglaterra nowdays, os serelepes do The Vaccines, que volta ao Brasil para mais uma algazarra e o melhor do rock indie, rock pop, ou pura e simplesmente bom rock que fazem. Diversos cidadãos estranhos passando por mim e ok, fomos lá. O que mais me chamou a atenção foi o clima de festa que rolava ali fora. Aquele clima permaneceria por toda a noite, o que de certa forma, não sei se a banda conseguiu perceber, mas eles estavam em uma cidade em festa (tirando aqui de fora todos os problemas com roubos que rolou nessa edição da virada). Parei em um mercado perto da Avenida São Luis. Peguei duas garrafas de agua. Nada de cerveja agora. Ao adentrar o local, peguei uma camisa oficial da banda (vicio meu de todo show), e fui ao encontro da banda. O que me esperava foi bem impressionante.
A banda de abertura do projeto promovido pela ClubNME, (versão de showzinhos legais que rolam nas principais cidades do mundo patrocinado pela revista inglesa NME, que chama uma banda legal e dá a oportunidade de uma banda local mostrar seu trabalho.) Inky, com uma garota linda e três marmanjos soltando um bom som misturando sintetizadores e boas doses de guitarra. Um pouco de Crystal Castles ali, gostei.
Na hora, entra Justin Young com seu cabelão e barba e a trupe com o guitarrista Freddie Cowan, o baterista Pete Robertson e o baixista Arni Arnason revelando pelo segundo ano consecutivo em terras brasileiros (ano passado eles tocaram em abril no Cine Joia trazendo a turnê do primeiro album "What Did You Expect From The Vaccines?"). Dessa vez promovendo segundo album lançado ano passado, o excelente "Come of Age", eles tocaram com alguma exceções, todos os sons dos dois discos, em parte dado ao fato de terem músicas rapidas e de menos de três minutos e por serem uma banda jovem podemos dizer, já que só possuem dois discos. O resultado foi pura cartase, uma celebração que a galera criou naquele espaço bacana. Young por diversos momentos ficou pasmo com a emoção transmitida pelo publico que soltava letra por letra as canções ali entoadas, com vale ressaltar atitude e pulso de dândi do rock, Young com seus cabelos longos proferindo riffs com voracidade e fazendo questão de joga-los ao vento. Enfim, sai de lá maravilhado com o que havia rolado. Um momento de pura admiração a uma banda nova de tudo e com aquele vigor todo de músicas fáceis e irresistíveis que falam da vida real, os pequenos dramas, amores e romances, como as lindas "If You Wanna" e "No Hope". Não há um momento de seus dois albúms que bata um momento de critica a ser feita, são duas amostras do que está por vir. Sendo uma banda muito incrível tanto ao vivo quanto no Ipod, o que fica é essa sensação de que eles são capazes de tudo. Mês passado tocaram no O2 em Dublin, lotando o local e recebendo criticas messiânicas da versão impressa da NME. Aqui está o futuro da música, ou talvez o presente e nele que aproveito essa banda da qual confesso virei fã. O que vier deles daqui pra frente vira com uma expectativa compreensiva.
Setlist:
1. No Hope 2. Wreckin’ Bar (Ra Ra Ra) 3. Ghost Town 4. I Always Knew 5. Wetsuit 6. Under Your Thumb 7. Tiger Blood 8. Melody Calling 9. All in Vain 10. Post Break-Up Sex 11. All in White 12. Wolf Pack 13. A Lack of Understanding 14. Aftershave Ocean 15. Blow It Up 16. Bad Mood 17. If You Wanna 18. Family Friend
É manhã de sábado em São Paulo. Enquanto a maioria das pessoas buscam mais algumas horas de sono, ou tomam seu café tranquilos sejam numa padaria ou em casa mesmo, tem gente que já está acordado há um tempo... pensando em juntar o máximo de joelheiras, munhequeiras, as clássicas chuteiras com pinos bem mais altos se comparadas as do famoso futebol, proteção bucal, entre outros apetrechos. Ali, enquanto o corpo pede um pouco de tempo a mais de sono, no cortex cerebral é emitido em segundos uma boa razão para levantar.
No final do século 19, muitos nobres cavalheiros ingleses se reuniam em clubes e associações, em campos bem aparados ou até mesmo em terras batidas, onde havia um esporte de muito contato físico, cuja bola oval, objeto de obsessão de todos era disputada com muita intensidade e potência. Ali, muitos esperavam pelo momento de abraçar uma dessas bolas e sair em disparada até a linha de in goal para marcar pontos, ou try, como o chamam. No meio da disputa, após um jogador derrubar o outro e provocar o tackle, formava ali o ruck, pela conquista da bola. "Um jogador entrou nas laterais do ruck! E não atrás do ultimo na disputa". Scrum fixo entre os forwards das duas equipes. O que os uniam ali não era só o esporte. Era o espirito de entrega pessoal de cada um ao jogo, ao campo, a bola e principalmente, mais que qualquer outra coisa: ao time.
Em ambos os casos: seja aqui em São Paulo, onde eu moro onde se reuni pela manhã jovens jogadores inspirados em parte pela divulgação maciça feita nos ultimos tempos no Brasil; ou lá no final do século 19 numa Inglaterra, onde muitos senhores distintos percorriam a cidade com seus ternos impecáveis e reluzentes, após entrarem nos vestiarios, surgiam fortes, atléticos e exibindo as famosas camisas listradas de rugby. Nesses dois momentos, eu quero expor esse algo no rugby que é inexplicável. Não é o aspecto visual. A bola ser oval. Os dois postes formando um H. As lindas camisas sempre impecáveis. Tudo isso é belo, mas não é, em sua essência, o que pensa uma pessoa quando pratica o rugby. Não mesmo. É passageiro. Pode ser guardado e esquecido. Pode ser furado ou enferrujado. O que se joga aqui e se veste é a alma de cada um, na luta para defender não apenas uma conquista, mas a vitória que vai impor respeito, coragem e determinação para aqueles que lutaram até o fim, deixando de lado a dor, o choro, o sangue e o suor.
Rugby é a minha paixão por saber traduzir todo o meu desejo de ir além dos meus limites. De me mostrar que no sol ou na chuva, estarei lutando. Não vai haver tempo ruim pra mim. Não tem barreiras que me impessam de impulsionar meu time à vitória. Meu coração à glória. Serei eu sozinho? Jamais. Seremos unidos. 15 num campo de batalha. Cortando, extirpando, libertando o sangue que escorre das pancadas e da garra individual. Que Deus abençoe a todos os rugbiers que lerem essa mensagem. Pois quando houver o cansaço, ainda vamos estar de pé. Até o fim da partida. (Nunca se esquecendo do Terceiro Tempo. hehe!)