domingo, 5 de fevereiro de 2017

Histórias de 2016. Contos sobre os melhores discos, filmes, séries e histórias de vida.

*Nada vai tirar o mérito de que tivemos um ano com novo disco do Wilco, show(s) do Wilco em São Paulo, Louis CK fazendo a melhor série dos ultimos tempos e um Star Wars tão majestoso.


Alec Baldwin imitando Trump. Os EUA foram a loucura. 


Vou começar a lista que todos os anos faço juntando tudo o que me impressionou e quero ser breve. Não houve um 2016 ruim. Não concordo com esse julgamento feito em todo canto. Separar frustrações e decepções numa caixa de 365 dias nos faz crer que haverá uma outra caixa que vai ser aberta e por ai vai até o virarmos pó de estrelas novamente. É uma forma de ver o mundo em caixas e não numa longa pista de corrida, que no meio do caminho tropeçamos, caimos, liberamos nossas endorfinas e conquistamos muitos podios e ficamos atras as vezes. O que aconteceu ano passado nos faz estar mais preparados para viver e não a aceitar que vivemos para sempre. Pessoas morrem, queridas como David Bowie, Leonard Cohen, Carrie Fisher, Prince, por ai vai. Pessoas elegem e apoiam figuras que nos dão nenhuma inspiração, pelo contrário, lideres que vieram para causar discordia. Pessoas ficam tristes. Eu fiquei muito. No final, isso tudo nos faz despertar do medo e da frustração e necessário para aprendermos a cultivar as nossas esperanças e confiança. Duas frases de dois pensadores do país que mais nos decepcionou em 2016 nos servem de espelho para terminar essa introdução minha do que foi os 365 dias que se passaram. A primeira de um pastor e uma das vozes mais influentes do protestantismo nos Estados Unidos, Henry Ward Beecher. "Our best successes often come after our greatest disappointments." ("Nossos melhores sucessos vêm depois de nossas maiores decepções") e a de Martin Luther King, que disse "We must accept finite disappointment, but never lose infinite hope." ("Nós devemos aceitar a decepção finita, mas nunca perder a nossa esperança infinita").

O que eu lembro dos filmes que eu vi...

The Lobster. De longe uma das obras mais inteligentes e interessantes do ano que se passou.


Apesar de estar de saco cheio de filmes de super-herois, Deadpool e Guerra Civil: Capitão América foi boas surpresas. O primeiro é um dos melhores filmes já feito nessa safra (original, corajoso e nenhum pouco censurado). Os filmes que venceram o Oscar, O Regresso sem duvida virou já um clássico, pela forma como foi filmado e pelos efeitos e a camera do diretor Alejandro Gonzalez Inarritu. Zootopia me chamou muita atenção também, filme de animação com tema de adulto que vai de se aproveitar dos outros a mostrar como não é facil a vida. O novo do Nicolas Winding Refn, "The Neon Demon" é uma das coisas mais vicerais e profundas do ano, que só perde para "Elle", do Paul Verhoeven. Desconstroi todas as nossas boas intenções e formas de lidar com o certo e o errado. Colin Farrell faz a mais brilhante interpretação de sua carreira no genial "The Lobster", do diretor grego Yorgos Lanthimos.

Rogue One, de Gareth Edwards é um filme muito bem feito e que nos enche das melhores sensações que um filme de Star Wars pode proporcionar: emoção, nostalgia e personagens muito bem feitos.


"There's a 97.6 percent chance of failure". K2SO melhor personagem.


O que mais me chamou a atenção sem duvida foi Manchester a Beira Mar. Drama poderoso, bem escrito e capaz de nos tirar do chão quando Casey Affleck e Michelle Williams discutem, depois quando se encontram anos depois. Poderoso e profundo. A Chegada faz algo assim também, mas aos poucos. Dennis Villenueve faz uma obra sobre nos mesmos e nossos conflitos internos, quando uma invasão alienigina parece ser capaz de despertar nossas reações mais profundas. Sing Street, um filme modesto feito pelo grande diretor irlandês John Carney, sobre garotos que formam uma banda parece ser um baita filme, quando termina um filme avassalador. O singelo torna gigantesco. Sem contar "La La Land" que estreou no começo já desse ano, mas é um filme que saiu ano passado e chegou aqui esse ano antes de eu escrever aqui. Ryan Gosling e Emma Stone vão ganhar todos os prêmios (e devem) pela forma unica de despertar o gênero de musicais para uma outra dimensão. Damien Chazelle, o mesmo garoto que dirigiu e escreveu "Whiplash" engata um filme que eleva o seu nome como a mais bela mente criativa de Hollywood.
 
Menções especiais ainda para: Sully, do Clint Eastwood, A 13ª emenda, documentário da Ava DuVernay, Dois Caras Legais, de Shane Black e Slow West, de John McLean que só vi ano passado.



O que eu lembro dos discos que eu ouvi...

Bowie nos deixa com uma obra prima. Blackstar é um adeus ao mundo em forma de música.


Começo pelo disco que abalou o ano. 'Blackstar' seria apenas o novo disco do grande David Bowie, se não acabasse sendo o seu derradeiro e postumo album. Com canções como 'Lazarus', que é uma confissão de sua morte, Bowie nos avisa "Look up here man I am in heaven. I got scars it can be seen." O seu ultimo disco é uma obra prima acidental. Traz a beleza da vida e da morte, em versos que caminham para nos levar para a finitude de toda uma vida e o que nos espera. Com oito musicas, o disco já entra para um dos melhores dos seus discos.

Sem duvida houve outros discos tão impressionantes quanto o de Bowie. Beyoncé realizou um dos seus mais ousados discos. LEMONADE tem o vigor de um discurso de protesto a favor de feminismo e preconceitos raciais. Faixas como DONT LOSE YOURSELF, parceria com Jack White soa como um Led Zeppelin junto de sua voz marcante. FREEDOM talvez a mais poderosa canção. Radiohead voltou com um disco profundo, com letras que norteiam a nossa busca por respostas. 'True Love Waits' assim como outras canções já haviam aparecido em shows, mas aqui no disco 'A Moon Shaped Pool' se torna um hino. Destaque para 'Daydreaming'. O rebelde Kanye West pode ser um completo perdido na vida real, mas nos seus discos ele dá o seu melhor. 'The Life Of Pablo' é uma obra prima cheia de nuances e com canções unicas. 'Ultralight Beam' é um hino gospel que abre o disco majestosamente. 'Famous' e 'Waves' são ótimas canções.

Angel Olsen fez um baita disco. Quem é ela? "My Women" é um instantaneo disco que catapultou a carreira dela. Dizem que os seus shows são ainda melhores. Um dos melhores discos de rock do ano. Em se tratando de rock, o melhor sem duvida é dos Car Seat Headrest, o brilhante "Teens of Denial". O disco é repleto de sons que vão até nove minutos, mas não fica chato. As guitarras e baixos constroem sutilezas, sons etéreos e a capacidade de transcender o sentidos. Wilco retornou com o excelente "Schmilco", trazendo menos a profundidade do ser humano, para tratar de sentimentos que nos remetem a mémorias de infancia, primeiros amores, decepções, vitorias.

Os ingleses do The 1975, e o seu "I Like It When You Sleep, for You Are So Beautiful Yet So Unaware of It" alardeado como melhor disco de 2016 pela NME é um dos belos discos do ano, com canções muito boas. A banda Fat White Family trouxe o arrebatador "Songs For Our Mothers" com a já inesquecivel "Whistest Boy on the Beach". Os The Last Shadow Puppets fizeram um disco incrivel, o 'Everything You Come to Expect' e o EP fantastico com direito a cover de Leonard Cohen, 'The Dream Synopsis". Ao falar de Leonard Cohen, esse foi outro grande nome da música a nos deixar com um recente disco. "You Want It Darker" fecha uma discografia inigualavel de canções que já ficaram para sempre guardadas em nossas mentes.

Parquet Courts vai fundo no novo disco num tom mais pop que os experimentais ultimos discos. "Humam Performance" dialoga com a vida ordinaria do dia a dia, aos molde de Talking Heads, cria hinos capazes de nos levar a compreender as nossas vidas através do espelho. Um dos maiores retornos desse ano foi dos rappers do A Trible Called Quest. Com o discaço "We Got From Here... Thank You 4 Your Service" eles foram além do comum mais uma vez e entregam canções poderosas para esses tempos sombrios que surgem.

Fonte: Scream Yell - Show do ano: Wilco no Auditorio Ibirapuera.


Menções especiais para: Iggy Pop e o seu "Post Pop Depression", Blood Orange trazendo o lindo "Freetown Sound", PJ Harvey e o seu disco de protesto "The Hope Six Demolition Project", Kings Of Leon e o pop interessante "WALLS", o retorno de Richard Ashcroft com o belo "These People", Pixies trazendo o som poderoso em "Head Carrier", Band Of Horses e o bem divertido "Why Are You OK" e o brilhante novo album do Jimmy Eat World, "Integrity Blues".


O que eu lembro das séries de TV que eu vi...


As crianças e seu RPG. O mundo que saiu do jogo e virou realidade. 'Stranger Things' marca a cultura pop do ano.


A "eleven" ou simplesmente "él" deixou as nossas cabeças cheias de questões mal resolvidas. A série 'Strange Things' foi um dos maiores acontecimentos na cultura pop no ano que se passou. Graças aos irmãos Matt e Rosss Duffer e do produtor e diretor Shawn Levy, uma história saida dos anos 80 com direito a referencias da época (da trilha sonora as citações de filmes), três garotos mais a misteriosa "eleven" saem em busca de pistas que levem ao paradeiro do amigo deles que desapareceu por razões misteriosas.

O ano que se passou mostra sem duvida que estamos na era de ouro da TV, com produções criativas e com um peso maior que o cinema, como palco para as grandes obras audiovisual. O maior exemplo disso são séries como Atlanta, criada pelo músico, ator, futuro Lando Calrissian Donald Glover, que mostra um rapper, um amigo e seu primo em dialogos existenciais em busca de sucesso em meio a dura realidade que vivem. A profundidade só é vista de longe, nas cenas, dialogos. BoJack Horseman, desenho do Netflix e This Is Us seguem pelo mesmo caminho.

Os gigantes da transmissão por streaming dominaram mais uma vez o ano. Netflix, Amazon Prime e Hulu (ainda não presente no Brasil), mostram que as gigante tem de competir o máximo que podem. A HBO, Fox, Showtime, Starz, entre outras mostram estarem trabalhando bem o suficiente para competirem.

O mega estrondo Game Of Thrones foi a grande série da HBO, que agora deixa mais duas temporadas antes do final da série para sempre. O final da ultima temporada mostra que as coisas estão chegando a um final incerto. Os ecos de poder em mãos erradas ao final lembra bem o que os proprios norte-americanos estão vivendo. A rainha dos dragões agora segue para a maior batalha de todas pelo trono. Aonde isso vai nos levar?

Em paralelo, a HBO já deixou as cartas expostas para a sucessão de GoT com o western futuristico Westworld. A série de Jonathan Nolan, JJ Abrams e Lisa Joy tem um roteiro absurdo, atuações acima da média. A trama nos coloca dentro de uma métafora sobre a nossa vida humana em paralelo a de um mero robô. A trilha sonora com Radiohead, The Rolling Stones no piano é um dos pontos alto. O compositor da trilha é o mesmo de GoT, Ramin Djawadi. Outros destaques execelentes da HBO foi Veep, com uma surpresa no final da temporada. Julia Louis-Dreyfuss continua acima da média; The Night Of, trazendo debates raciais em meio a um crime sem solução. A genial Silicon Valley, na sua melhor temporada até aqui. Girls na penultima temporada. A sensacional série 'Vinyl' com Martin Scorsese, Mick Jagger e Terrence Winter não sobreviveu a uma segunda temporada, mas deixou uma incrivel experiencia visual, auditiva vibrante. O ator Bobby Cannavale está absurdo como o dono de uma gravadora em meio a efervecente Nova York dos anos 70.

Claire Foy estonteante.


A Netflix teve o seu ponto alto, além da série da "eleven", com a história da rainha Elizabeth no começo de seu reino como rainha. 'The Crown' escrita por Peter Morgan expõe os dramas vividos pela ainda jovem rainha (vivida pela atriz absurda de boa Claire Foy) em busca de dialogos com o parlamento, seus problemas em familia, primeiro com sua irmã e posteriormente com seu marido. Um requinte em fotografia, trilha-sonora, edição, figurino, cenários estonteantes. É impossivel estar indiferente a essa série.

Outra atração da plataforma de streaming foi a nova temporada de Black Mirror com um primeiro episodio já classico, sobre os vicios na exposição causada pelas redes sociais. Destaque ainda para Love, escrita por Judd Apatow, Master Of None, escrita e estrelada pelo ator Aziz Ansari. The OA, produzida pela produtora de Brad Pitt.

Louie é uma série incrivel do gênio do stand up Louie CK, mas se podemos dizer que ele esteve em um projeto que beira a uma obra prima é a série 'Baskets' da FX. Com Zach Galifianakis no papel principal se dividindo em dois papéis hilários, ainda não chega perto do quão é hilário sua mãe na série. O ator Louis Anderson faz Christine Baskets, uma dona de casa gorda a ponto de entrar em coma por causa de uma diabetes contraida pela dieta comum a todo norte-americana (baseada em fast-food e comidas cheias de calorias). Outro destaque é a Martha (interpretada por Martha Kelly). Chip Baskets (Zach) é um palhaço que estuda como ser palhaço na França. Lá ele se apaixona por uma francesa ambiciosa. O seu destino acaba sendo a de um drama sem fim, mas no fundo de tanta coisa ruim, os roteiristas aqui extraem o melhor da comédia no ano.


Louis CK atrás das camaras e Zack Galifianakis. Geniais em 'Baskets'

Menções especiais para: Mozart in the Jungle, da Amazon Prime, com Gabriel Garcia Bernal; Halt and Catch Fire da AMC, com uma terceira temporada boa; Red Oaks, da Amazon Prime, produzida por Steven Soderberg, a assustadora 11.22.63, com James Franco e produzida por JJ Abrams junto com Stephen King, baseado em sua obra; Animals, desenho da HBO sobre pombos, gatos, cães; Catastrophe, brilhante série inglesa com os atores Rob Delaney e Sharon Horgan como um casal e um bebê em dialogos cheios de referencias e situações hilárias; Fleabag, outra série inglesa com a revelação Phoebe Waller-Bridge no papel de uma mulher na casa dos trinta superando tragédias pessoais; High Maintenance, da HBO baseada numa série de curtas exibidas pela internet sobre um sujeito vendendo maconha; Outcast, da Fox, criado por Robert Kirkman, o mesmo de The Walking Dead. Creppy as hell; a segunda temporada de Mr. Robot, com uma trama não tão interessante quanto a primeira, mas vele a pena dar continuar vendo; The Night Manager, série incrivel com Tom Hiddleston e Hugh Laurie, da BBC com a AMC; The Get Down, uma grande surpresa vinda do diretor Baz Luhrman, australiano diretor de Moulin Rouge, O Grande Gatsby, que cria uma história brilhante sobre o hip hop em meio a um carrossel de musicas, danças e improvisos de hip hop; Ash Vs Evid Dead, Blunt Talk, Insecure, You're the Worst, Man Seeking Woman fecham a lista.

E claro ainda tivemos o futebol brasileiro...

Fonte R7 - É campeão, rs

domingo, 23 de outubro de 2016

Kings Of Leon voltam para cantar alegrias e decepções para grandes arenas

Image: NME - Explorando o pop rock

Há algo de interessante acontecendo. A banda dos Followill abdica de vez a imagem de sujeitos cabeludos e de roupa caipira e embarca de vez em uma mistura de pop radiofonico e visual hipsters moderninhos. A transição pode assustar os fãs dos primeiros discos, como "Aha Shake Heartbreak" e "Because of the Times". O choque é ruidoso e sonoro, porém não há como negar que a banda descobriu ser capaz de fazer bons hits.


Entretanto, por outro lado eles se mostraram talentosos o bastante no ultimo disco "Mechanical Bull" em dosar boas quantidades de profundidade nos discos mais country-garage do começo da carreira. Claramente que amadurecer faz bem, e aqui eles estão no auge limitados por uma sensação que fica de que a banda é agora comercial sem espaço para o indie. A sensação de que ter o frescor de uma banda independente faz muitas bandas criar uma atmosfera bela e não tão manchado e estridente como faz o pop muitas vezes.


Retornando as arenas... They're back to the chorus.


O mérito de "WALLS" é explorar todo a força das grandes canções feitas para festivais e estádios, com as letras bem feitas e refrões que vão do som pegajoso a delicada canção com tons interessantes. "Around the World", "Reverend" e "Find Me" são bons exemplos das canções que inundam o album de "catching songs". Não por isso são ruins. Estão mais para uma forma como a banda resolveu encarar o visual para esse sétimo disco. (Entretanto espero que não se torne uma marca para os próximos discos). Visual esse que segue os esteriotipos dos fãs decepcionados com o som visto de "Only By The Night" para cá: um pop barato e comercial. Na defesa dos Followill, eles são capazes de fazer mais do que músicas que tocam nas radios, mas eles fazem isso de uma forma boa e envolvente.


A faixa titulo "WALLS", talvez seja ao lado de "Muchacho" e "Waste a Moment" canções incriveis. A canção passeia por guitarras que dilaceram corações. "You tore out my heart. / And you threw it away. / The western girl with eastern eyes. / Took a wrong turn and found surprise awaits. / Now there’s nothing in the wayIn the way. / In the way. / In the way", canta Caleb Followill com a voz de um coração partido. Deixa ao final com essa música fechando o disco o vazio de todo sentimento de alegria e festa do começo do disco. Isso não faz de "WALLS" um disco primoroso, mas traz mais do que eles fizeram alguns albuns atras. Levando em conta que eles tiveram desintendimentos sério dentro da banda que poderia culminar no fim e separação, esse disco pelas entrevistas dadas parece ter revigorado a união entre eles. Se foi um disco de celebração e reunião entre eles, espero que inovem mais no proximo disco. Por hora, está muito bom assim.





sexta-feira, 6 de maio de 2016

A playlist perfeita.

* A ideia de criar A PLAYLIST DEFINITIVA para esse tempo.



As vezes me pergunto: Como é que raios eu passava há quinze anos atrás consumindo música comprando um álbum, e esse álbum custava os olhos da cara e a unica opção era ouvir o mesmo disco mil vezes?  Por que se comprar dois pode ter certeza que iriamos passar o mês vivendo de migalhas. Detalhe: muitos da minha idade, 20, 25 anos estavam no ensino médio, o que significa passavam o tempo todo sem grana. Até que surgiu o YouTube, lá pelos tempos de 2007, 2008 e podíamos dar um play em uma canção que consumia horrores de discagem da internet. Isso quando não resolvíamos baixar pelos programas Kazaa, Emule, Napster, etc. Esperando Jesus voltar, mas a música nada.

Hoje temos serviços de streaming que fazem toda o serviço de comprar todos os discos, baixar todos os discos esperando uma eternidade. E com isso vem playlists. E com isso vem a versão dos nossos tempos de fitas cassetes que fazíamos para pessoas que amávamos, sendo nesse caso, um pretexto para conquistar corações, amizades ou nossa propria pessoa, afinal a gente sempre se amou né.

Playlists faz o trabalho do psicologo muitas vezes. Você ouve uma sequencia legal e toma umas mensagem, embalado pelos ritmos certos. Não tem como se ignorar perante a nossa existência. Pode ser aquelas: Momentos de Solidão, Corações partidos, Decepções amorosas, Pensando na Vida, etc. No final, resta as doses de sentimentos aflorados.

Essa invenção divina foi massificado com a invenção realizada em Estocolmo, Suécia chamada Spotify. De lá pra cá, teve o Pandora nos EUA que fez barulho criando rádios especificas para certos assuntos. Teve Deezer, Rdio (hoje, RIP) e entre outros. No Brasil, tinha um chamado Sonora, do portal de noticias Terra. Era horrendo, mas inovava trazendo esse tipo de serviço aqui no Brasil. Em 2016, o país tem Google Music, Tidal, Apple Music, Napster (só o nome restou, do serviço Rhapsody), Groove, etc.

Nesse momento vivemos num oásis de conhecimento musical. Podemos entender muito, sem o menor esforço. A playlist imbatível é aquela que te mostra quem você é de verdade. Sem filtros, sem maquiagem. Ela tira a sua roupa e te deixa pelado, na frente das pessoas. No metrô, no parque correndo, na festa, no trabalho. Te deixa acima da existência, dançando enquanto percebe que a vida é uma droga e nada vai dar certo. Pode parecer desesperador pensar assim, mas ao som de The Black Keys em "Gotta Get Away" parece que não importa tanto. No final, somos nós mesmos.

* Frances Ha (Noah Baumbach, 2012) melhor filme. Greta Gerwig dançando ao som de "Modern Love", do Bowie. Melhor cena.





*Link interessante sobre a música nos dias de hoje... Uma observação desses tempos.



quarta-feira, 4 de maio de 2016

Queimem as bruxas. Nós sabemos aonde vivem. O novo som do Radiohead.

Atirando bruxas no fogo.

A banda que chacoalhou o rock dos anos 90, inovando com um som progressivo diferente de tudo o que foi feito (isso até aqui), com guitarras distorcidas, som pesado e letras provocadoras, está trazendo o novo som para um novo tempo. Radiohead é sinônimo de musica depressiva muitas vezes por se despir em suas canções de estruturas convencionais e buscar sons etéreos. Thom Yorke, o genial vocalista, deixa sua voz rolar, em meio a batidas e sons que ecoam em nossas mentes. Jonny Greenwood solta aquelas guitarras distorcidas lindas que fazem o som ambiente dessas canções majestosas, como as já unicas No Surprise, Jigsaw Falling into Place, All I Need, etc.

Depois do barulho causado, após apagar todos os perfis em redes sociais e deixá-los em branco, eles liberaram ontem o novo som. "Burn the Witch" é assustadoramente bela. A audição da canção parece simples, mas carrega um medo dos tempos em que vivemos.

"Red crosses on wooden doors
And if you float you burn
Loose talk around tables
Abandon all reason
Avoid all eye contact
Do not react
Shoot the messengers

This is a low flying panic attack
Sing the song of sixpence that goes"

O videoclipe é outra maravilha. Dirigido por Chris Hopewell, o filme foi feito com personagens animados feitos com massinhas, baseado em uma série infantil inglesa dos anos 60, chamada Trumpton. Há referencias ao filme "O Sacrificio" (The Wicker Man), de 1973.



Um belo retorno dos ingleses.



terça-feira, 3 de maio de 2016

Vinyl mostra a fúria musical de uma geração



* It's all about the songs, guys. Can you hum it? Will you remember it tomorrow? Does it make you want to call the radio station and ask who the band they just played was? Think back. Think back to the first time you heard a song that made the hairs on the back of your neck stand up, made you want to dance, or fuck or go our and kick somebody's ass! That's what I want! In two weeks.
                                                                                                        - Richie Finestra


Mick Jagger e Bobby Cannavale. Ambos separados pela ficção e realidade.

O mundo do rock teve um ápice em sua historia como gênero musical. Quando o blues inspirou um blues rock, guitarras mais rápidas, um som mais afinado, com melodias que passeavam por inspirados acordes, foi quando Elvis Presley surgiu, assim como Jerry Lee Lewis, Howlin' Wolf, Johnny Winters, entre outros percursores. Esses foram os anos 60. Ainda não foi o ápice. A Inglaterra tomaria notas do que acontecia em solo americano e aperfeiçoou o rock e o transformou em um delírio, uma projeção do que viria a ser o pop. Os Beatles trouxe novos elementos e transformou a industria em um negocio cada vez mais rentável. As gravadoras passaram a ganhar dinheiro como nunca. O ambiente promissor para a música abria as portas para um negocio lucrativo.

Os anos 70 chegaram com a ressaca do movimento hippie, Woodstock e LSD. A música ainda estava atordoada com os discos de MC5, The Stooges e The Velvet Underground, falando da realidade das ruas de Detroit e Nova York. Com os ingleses revolucionando com os sons do The Who, David Bowie e Led Zeppelin, a cena em NY trazia um barulho ensurdecedor. E é nesse ritmo que o produtor Terrence Winter, o cineasta Martin Scorsese e o musico lendário Mick Jagger se uniram para contar histórias do ápice do rock como gênero musical, inovando em ritmos, influencias e mercado musical passeando pelas ruas novaiorquinas da época.



A ideia inicial era fazer um filme longo. Que passasse das três horas de duração, contando uma epopeia musical, tendo a cidade de NY como palco dessa revolução. Essa ideia partiu dos "bons companheiros" Martin Scorsese e Mick Jagger. Com a entrada de Winter, amigo de Scorsese e produtor de séries como Sopranos e Boardwalk Empire, a intenção de dar espaço narrativo para mais histórias em uma série ganha força. 

A HBO abraçou a ideia e lançou a série em Janeiro desse ano. O primeiro episodio é um soco no estomago. "That's rock n' roll -- it's fast, it's dirty, it smashes you over the head.", esbraveja Richie Finestra, interpretado soberbamente pelo ator Bobby Cannavale. Finestra é dono da gravadora "American Century Records" que anda passando por maus bocados, com artistas saindo e as dividas crescendo.

O envolvimento de Richie Finestra com o som bluezero de Lester Grimes (Ato Essandoh), foi o motor que impulsionou sua vida a frente de uma gravadora. O que trazia Grimes, um talento nato, foi lapidado até chegar em um produto musical popular e desperdiçado. Finestra se sente mal e sabe que não valorizou o talento que tinha, muito em parte, em detrimento do envolvimento de Maury Gold, um mafioso dono da gravadora que coordenava as ações de Finestra em seu começo de carreira. O que a história nos deixa são histórias de fracasso em meio ao brilho do rock, por que se houve glamour foi nas drogas, sexo e rock'n roll. O que os musicos, empresários e pessoas proximas sentiam era um completo vazio.



A mafia e o rock'n roll americano tem uma relação estreita e isso não é mais novidade. O que 'Vinyl' traz é uma viagem por dentro desse negocio. E ninguem melhor para dilacerar esses eventos do que Martin Scorsese, principalmente no piloto da série que dirige.

Não tem como não se sentir tragado, como uma poderosa droga no corpo, vendo essa série. O som do rock vibrante, tão presente em livros sensacionais sobre o periodo como 'Mate-me Por Favor' de Legs Mcneil e Gillian Mccain está aqui mais vivo do nunca. O som que saem das guitarras do Nasty Bits, banda liderada por Kip Stevens (James Jagger, sim, filho de Mick Jagger) que na série se entrega de corpo e alma ao papel. Destaque para a atriz Juno Temple como Jamie Vine que faz o interesse sexual de Kip Stevens e a estonteante - e que olhos - Olivia Wilde que interpreta Devon, a queridinha de Andy Warhol e futura esposa de Finestra. Outros destaques são os outros sócios da American Century Records, juntos de Finestra, interpretados por P.J Byrne (Scott Levitt), Ray Romano (Zak Yankovich) e Annie Parisse (Andrea Zito).

fonte / HBO


A série não empolgou muito entre o publico, mas a HBO renovou a série para a segunda temporada. Com a saida de Terence Winter como um dos showrunners responsaveis pela série, devido a diferenças criativas e a entrada de Scott. Z Burns ("O Ultimato Bourne") e Max Borenstein ("Godzilla" e "Minority Report") como produtores executivos, deixa a série sem muitas perspectivas certas de como se dará as próximas temporadas. O que fica dessa primeira temporada é a explosão em nossa cara, com um roteiro afiado e viciante, 'Vinyl' é uma série que promete ser marcante como 'Mad Men' foi recentemente. Uma história sobre uma época unica em uma Nova York do passado. Os dez episódios são tão viciantes quanto uma tirada de cocaína no sangue.


quarta-feira, 30 de março de 2016

A música ficou chata, ela vai mudar e nunca mais será a mesma

* Essa vai para os corações cheios de vontades de não ouvir mais os mesmos top 20 nunca mais na vida


Um Kevin Parker ouvindo sons e fazendo sons. Photos by Photographed by Matt Sav


O som mudou mas ainda continua o mesmo. Dançamos, choramos e corremos atrás de sons que definam nossos momentos nessa vida na Terra. Vida sem sentido, cheio de vazios. Ouvir canções se tornaram uma forma de reagir as dores dessa vida. A expressão de fúria, calma e vertigem. O som que era blues, virou rock, que ficou chato e virou um rock ainda mais rápido e curto, o punk, que trouxe o grunge, que antecedeu o rock progressivo e new wave. A certeza é que não somos mais compostos por gêneros - sejam musicais, políticos ou sexuais - digo no presente, o presente de fato. O ano de 2016 pode ser definidor para os rumos da música, como expressão artística e para a relações e reações entre indivíduos.

E nesse vai e vem dos dias de hoje, fazer música virou uma expressão de construir a mistura exata do que se ouvir. O hip hop teve um papel tão importante quanto o jazz e o blus nessa mistura. Assim como sons eletrônicos, provenientes dos anos 80 em diante. O jornal inglês The Guardian postou nesse mês uma reportagem sobre esse tema escrita por Peter Robinson, editor do site Popjustice e que contribui para a NME. A música feita hoje, numa rápida observação panorâmica pode ser muitos sons em uma só música. David Bowie, sempre a frente do seu tempo, pareceu em seus últimos discos em vida, querer mostrar como a música é no futuro: sem rótulos.

Músicos novos e os mais contemporâneos buscam não mais um som, como o rock'n roll e o hip hop. Buscam a expressão de sons que ouvem e se identificam. A neo-zelandesa Lorde, aposta de Bowie como uma imagem do futuro da música, mescla o rap com o rock, transitando pelo pop e fazendo sons que invadem pistas eletrônicas. Seu som pode ser rotulado de Alternativo, o que nada mais é do que um rotulo que simplifica a essência desse som modificado presente hoje. O Indie, que na realidade, não é independente, já que Florence + the Machine deixou de ser indie depois de seu segundo disco. O que marca a música, como expressão artística, é a sua multiculturalidade. O Arcade Fire, ao expressar na música de seu último disco, "Normal Person", antes de iniciar a canção, o desabafo: "Oh man, Do you like rock and roll music? 'Cause I don't know if I do", indica bem o que a música é hoje em dia, quando uma das maiores bandas de 'rock' expõe isso, em um disco repleto de influencias caribenhas.


Finestra e sua busca pelo som de rock perfeito. Vinyl/HBO.


A Rihanna hoje faz cover do Tame Impala e o Ryan Adams faz um disco todo de cover da Taylor Swift. Justin Bieber tem hits que não são pop convencional, e sim belas gravações moldadas por Diplo, o produtor influenciado por tudo quanto é gênero. A NME é uma revista gratuita que coloca o Bieber na capa, porque não diz mais o que se dizia décadas atrás. As batidas, o furor e a energia criativa das músicas feitas no passado representam exatamente aquilo que não existe mais. Gêneros musicais são importantes hoje como ingredientes, e não mais como o prato principal. Quem busca referencias no Every Noise at Once, que acha playlists no Spotify ou Tidal, não mais se orienta por tipos. O que buscava Richie Finestra, na série produzida por Martin Scorsese e Mick Jagger, na HBO, em sua gravadora, é o som de um tempo que se misturou a todos os tempos até aqui. O rock se sedimentou, como já confessou Sergio Pizzorno, guitarrista do Kasabian. "O rock está morrendo." Outro que seguiu nesse desabafo foi o guitarrista da lendária banda de rock Kiss, Gene Simmons, em uma entrevista para 'Esquire':

"There was an entire industry to help the next Beatles, Stones, Prince, Hendrix, to prop them up and support them every step of the way. There are still record companies, and it does apply to pop, rap, and country to an extent. But for performers who are also songwriters — the creators — for rock music, for soul, for the blues — it's finally dead. Rock is finally dead."

A música está chata. Estivemos um tanto de tempo parados olhando para o pop do final dos anos 90 até o inicio dos anos 2000, o rock, o hipo hop, a mídia musical segmentando gêneros. Esse tempo acabou, mais ainda respiramos a incompreensão do barulho que ainda causa a falta de criatividade. Não ouvimos mais canções com o peso do passado, entretanto esse é o futuro. Não houve mais bandas que expressassem a atitude de um tempo. O Kanye West tem atitude, mas é burra - não desmerecendo sua genialidade. Tudo está distribuído entre nós. A solução, se essa é a solução, talvez seja não separar artistas e abraçar uma época que redefine o som, como abrangente forma de fazer sons. Será uma bela opção a ser dada.

Os Stones fazendo sons de uma geração. Fotos da Olympic Studios.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Como salvar os super-heróis?

*Uma reflexão sobre o momento cinematográfico em que vivemos.



Image via Empire


O cinema, como arte barata feita para o proletário se entreter - o que nisso não há nada de ruim e sim de bom já que arte muito conceitual e seletiva é chata e esquecível - vem trazendo nos filmes de super heróis um nicho de centenas de produções para encher salas multiplex de shoppings. Se o passado do começo do século passado era dominado por faroestes/filmes bíblicos, comédias pastelão e romances épicos, o começo desse século só tem quadrinhos.

O problema disso é que os heróis não cabem mais na fantasia e são demasiadamente realísticos. Essa afirmação tem seu lado verdade, mas não sobrevive a ideia de que não vivemos no mundo de fantasia dos EUA na Guerra Fria, onde o outro lado socialista ditava o mal. A mitologia dos heróis que vemos nas telas ainda baseados naquele cenário, promove em sua versão atual no cinema essa aproximação com a realidade que até é positivo.

O novo filme 'Batman Vs Superman - A Origem da Justiça' trata-se de uma reflexão acerca sobre heróis no cinema hoje em dia, ou pelo menos soou para a minha pessoa. O confronto entre dois seres anormais em uma realidade onde a humanidade dá espaço para grandes corporações com poderes ilimitados, como a LexCorp, não é verossímil. O bom do filme é justamente pensar nos super-heróis como responsáveis por defender a humanidade do mal, seja esse qual for, nos dando o conforto de que em meio a Estado Islâmico e terroristas, há seres com poderes capazes de derrotar essas ameaças. A própria humanidade, como fica explicito no filme, se torna a maior ameaça. E nesse responsável, a figura de todos os que sentiam repulsão pelo ser alienígena Super Humano.

Passado o frenesi, 'BvS' é um filme inacabado, justamente por não propor um enredo que funcione para lermos o filme em um formato. O filme todo não ganha um formato. O que Zack Snyder faz é entuchar em um só filme o que a Marvel levou anos de filmes para fazer: apresentar os super-herois de forma compreensível. Buracos no roteiro, soluções risíveis para dilemas entre os personagens, um começo de filme que poderia ser facilmente cortado do filme. No final, desejamos ter visto mais de uma só história que fizesse sentido, uma em que de preferencia colocasse um protagonismo em um embate prometido e que não se concretiza. Qual o sentido desse filme?

O que importa é achar que esses super humanos podem existir. No caminho, pode haver exageros, desde que não nos soe forçado demais, caricaturístico demais. Os filmes do Batman, dirigido pelo mestre dos exageros Tim Burton foi um retrato dos exageros dos anos 90. Ainda soava plausível crer no surreal no que se tratava de homens morcegos. Hoje, só pode soar antiquado e sem graça. As versões do diretor Christopher Nolan ensinou para a critica e publico que lugar de super heróis é no mundo real sombrio e cruel.




Na visão da Marvel ainda podemos sonhar, já que seus personagens são atemporais (ou pelo menos, muitos deles), tais como Homem Aranha e Hulk. O que não deixa de fora a profundidade de temas atuais como vistos nos recentes Vingadores e Capitão América. Ainda assim, as histórias parecem soar tudo o mesmo saco de tramas. Os filmes do Thor são um saco. Assim como os novos Homem Aranha. Já não há mais espaço para historias tradicionais de super heróis. É preciso radicalizar e mostrar algo interessante. Projetos como Deadpool são um frescor ao marasmo de sacos cheios de uma platéia sem paciência para esse gênero monótono.

A salvação para os super-heróis é não ser super-heróis. Ser, no lugar de messias da humanidade, figuras apaixonantes por construir o fantástico em cima de fracassados. Como nós.

As séries da Marvel no Netflix parece seguir o caminho certo. Essa é uma época em que o protagonista de filmes assim mora em lugares atípicos, tais como o herói da série Mr. Robot. Pode ser qualquer um, não precisa ser rico ou ter super poderes.